Zeca Pagodinho é menos Doria

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Viralizou a imagem do prefeito de São Paulo João Doria implorando por uma foto com o cantor Zeca Padoginho no camarote Bar Brahma.

O sambista ficou irritado com a presença do tucano no camarote do carnaval de São Paulo. Zeca só aceitou fazer o retrato ao lado de Doria depois de muito constrangimento e imposição do patrocinador da área VIP.

O bafão ocorreu nesta segunda noite de desfiles das escolas do Grupo Especial de São Paulo, que teve a apresentação no Anhembi da Vai-Vai, Império, Mocidade, X-9 Paulistana, Gaviões da Fiel, Dragões da Real e Unidos de Vila Maria.

Em 2002, Zeca Pagodinho ofereceu um churrasco ao então candidato Luiz Inácio Lula das Silva. Na época, o cantor fez a seguinte declaração que é continua atualíssima: “O País precisa de alguém do povo, que conhece o sofrimento dos mais humildes. Lula é único que conhece essa realidade.”

Meio século da Globo

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O deputado mineiro José Maria Alkmin foi advogado de um crime bárbaro. No júri, conseguiu oito anos para o réu. Recorreu. Novo júri, 30 anos. O réu ficou desolado:

– A culpa foi do senhor, dr. Alkmin. Eu pedi para não recorrer. Agora vou passar 30 anos na cadeia.

– Calma, meu filho, não é bem assim. Nada é como a gente pensa da primeira vez. Primeiro, não são 30, são 15. Se você se comportar bem, cumpre só 15. Depois, esses 15 anos são feitos de dias e noites. Quando a gente está dormindo tanto faz estar solto como preso. Então, não são 15 anos, são 7 e meio. E, por último, meu filho, você não vai cumprir esses 7 anos e meio de uma vez só. Vai ser dia a dia, dia a dia. Suavemente.

Eu o relembrei porque nesta semana, a TV Globo comunicou suavemente a saída de uma de suas principais profissionais. Tive a notícia lendo um texto como sempre primoroso do mestre cearense Wilson Ibiapina. Após 48 anos dedicados ao telejornalismo, Alice-Maria decidiu deixar a emissora para se aposentar. Era diretora de desenvolvimento de programas especiais, desde julho de 2009.

Chegou à TV Globo em 1966, como estagiária, no primeiro ano de fundação da empresa. Comandou o jornalismo da Globo por duas décadas, a criação do Jornal Nacional e a implantação da GloboNews. Foi a primeira mulher a ocupar um cargo de direção na Central Globo de Jornalismo.

Alice, parece que foi ontem. Você, Humberto Vieira, Sílvio Júlio e Amaury Monteiro comandando a reportagem, todos fazendo a primeira edição do Jornal Nacional.

Oito horas da noite, Cid Moreira e Hilton Gomes. Alfredo Marsillac na mesa de corte. Um trecho da música The Fuzz, de Frank de Vol, invade os lares. Pela primeira vez, estava entrando no ar o Jornal Nacional. Primeiro de setembro de 1969, uma segunda-feira.

O Marsillac ainda deve ter guardado o script do primeiro JN, que o Armando deu-lhe de presente com o bilhete: “Marsillac… e o Boeing decolou”. O jornal entrando no ar, na cabeça do Armando Nogueira, era que nem um Boeing levantando vôo. Não podia ter erro.

Quando cheguei em 1970, o JN ainda uma criança e todos com a preocupação de mantê-lo com qualidade, num formato que aos poucos foi se definindo. O Telejornalismo brasileiro era outro depois daquele dia. E você foi peça preciosa nessa mudança.

Não esqueço de sua preocupação, orientando editores, repórteres, cinegrafistas. Em tudo tinha seu dedo. A equipe foi crescendo: Sebastião Nery, Castilho, Nilson Viana, Jéferson, Meg, Ronan, Luis Edgar de Andrade, Vera Ferreira, Lucia Abreu, Edinete os irmãos Aníbal e Edson Ribeiro e o baiano Jotair Assad.

Eron Domingues, Sérgio Chapelin, Celso Freitas, Berto Filho, Carlos Campbel, Marcos Hummel. Tereza Walcacer, Henrique Lago, Ricardo Pereira, Pedro Rogério, Antônio Severo, Woile Guimarães, Eurico Andrade, Wianey Pinheiro, Ronald de Carvalho, Toninho Drummond, Carlos Henrique de Almeida Santos, Eduardo Simbalista, Carlos Henrique Schroder, esse mesmo que hoje é o diretor geral da Rede Globo, todos grandes jornalistas que foram aprender com você a fazer televisão.

Citei alguns nomes, mas, na verdade, todos da Central Globo de Jornalismo aprenderam com você. Como a maioria, orgulho-me de ter participado de sua equipe durante 20 anos. Abraço forte do Wilson Ibiapina e da Edilma Neiva, seus alunos, admiradores e amigos.

Por Sebastião Nery

Bolsonaro pede ao STF censura a Datafolha

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Chegou ao TSE pedido de Jair Bolsonaro (PSL-RJ) para censurar pesquisa do Datafolha, que deverá ser divulgada nesta quarta-feira (31) pela Folha de S. Paulo.

“…requer-se a concessão da tutela de urgência, nos termos já expostos, e, no mérito, seja julgada procedente a presente representação, impedindo, em definitivo, a divulgação da pesquisa impugnada”, pede o presidenciável do PSL.

Bolsonaro alega que os questionários do instituto induzem o eleitor a responder o que o jornalão quer como resposta, ou seja, seria uma pesquisa tendenciosa.

Os advogados do presidenciável afirmam que o Datafolha faz proselitismo com a reportagem da Folha sobre o aumento do patrimônio da família Bolsonaro.

“Não basta plantar a notícia falsa, é preciso confirmar sua aceitação!”, escrevem os defensores do candidato do PSL.

“O DataFolha está com uma pesquisa na rua na qual tenta induzir os eleitores contra Bolsonaro. Meu palpite é que essa pesquisa vai trazer Lula com uns 40%. É jogo combinado”, opinou o ex-mensaleiro Roberto Jefferson, presidente nacional do PTB e pai da candidata a ministra do Trabalho Cristiane Brasil (PTB-RJ).

Lula, herói do PT e vilão de si

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Até pouco antes de chegar ao poder o PT encarnava o discurso de paladino da moralidade. Catava indícios de corrupção nos grotões do país para levar os acusadores até a mídia. E daí fazer a festa.

Uma vez Lula lá, logo se viu, o filme era velho. Começou com Toninho do PT, então prefeito de Campinas, assassinado em setembro de 2001 com três tiros, logo a seguir em janeiro de 2002 veio Celso Daniel, prefeito de Santo André, ambos em São Paulo, sequestrado e assassinado.

Com o PT no poder esperava-se a adoção de medidas para uma apuração rigorosa para as mortes dos velhos companheiros. Qual nada. Com Toninho, o caso nunca foi esclarecido. Com Celso, três pessoas foram condenadas, mas o caso rendeu até livro mostrando uma intensa teia envolvendo esquema de corrupção. Publicamente, os petistas calaram-se. Nos bastidores, agiram para abafar o caso. A viúva de Toninho, Roseana Garcia, queixa-se muito.

Aí veio o Mensalão, a nascente da bacia que desaguou na Lava Jato. O governo do PT, ao invés de de tomar jeito, de se emendar, botar os pés no rumo, parece ter feito caminho inverso. Ampliou a escala da corrupção, ao que dizem, para cumprir ‘um projeto de poder’, que se embolou com as tentações das vantagens pessoais.

Lula agora se diz vítima, mas sempre aponta terceiros. Não faz a autocrítica que desaguaria nele próprio.

Esquerda e direita

Falcatruas à parte, convenhamos, Lula é o único governante do Brasil desde que Cabral aqui chegou, que veio da ralé. E uma vez no poder implementou políticas de esquerda.

Num item, a educação superior, por exemplo, vê-se com clareza as diferenças. O governo Fernando Henrique Cardoso, nessa máxima da direita, a de achar que o mercado tudo resolve e ao poder público cabe dar as condições infraestruturais, fez desabar sobre o Brasil uma tempestade de faculdades particulares.

Lula, ao contrário, só na Bahia, criou mais cinco universidades federais. Tínhamos uma, a UFBa. Temos seis. E os Institutos Federais de Educação pularam de dois para 32. Tivéssemos nós no Brasil um jogo político limpo, o povo estaria compelido a escolher entre as duas opções.

Lula perdeu a chance de limpar o jogo. Agora afunda na lama que ele ajudou a crescer. Que pena.

O julgamento

O julgamento no TRF-4 deixou a sensação clara de que o crime houve, mas não foi consumado. Como alguém que vai para matar outro, atira, mas não conseguiu finalizar. Ou de um bandido que vai assaltar, puxa o revolver, mas não consegue o intento.

Tem imbricamentos políticos? Óbvio que sim. Os adversários se vangloriam e tiram proveito? Também é óbvio. É do jogo. Embora muitos dos que agora se vangloriam se travestem de vestais da pureza exatamente como o PT fazia antes.

Alguns nem ligam para Temer e a JBS. Ou nem disfarçam. Outros, nunca governaram. A nossa tradição está mantida na linha do governou, sujou. Ainda está para aparecer alguém que quebre a regra. Por agora, o melhor é duvidar.

Por Levi Vasconcelos

Uma lição Nacional

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Na geografia dos estados brasileiros, a relação na distribuição de renda, por habitante, é indecorosa. Nas diferentes regiões, das mais prósperas às mais pobres, a realidade é de monstruosa concentração de renda nacional. Na desigualdade por unidade federativa, em 2014, o Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) levantou dados para aferir o padrão de vida dos brasileiros.

Em 2017, o estudo “Inquality in Brazil: a regional perspective”, dos economistas Izabela Karpowicz e Carlos Góes, divulgado pelo FMI e Banco Mundial, comprova a abissal distância entre ricos e pobres. O diferencial focou a renda mensal dos 5% mais ricos e os 5% mais pobres.

No mais desenvolvido, o Estado de São Paulo, os 5% mais ricos têm renda de R$ 8.200,00 e os 5% mais pobres R$ 165,00. No Rio de Janeiro, fica em R$ 7.600,00 e R$ 141,00; no Paraná, R$ 7.600,00 e R$ 197,00; em Minas Gerais, R$ 7.700,00 e R$ 147,00; no Rio Grande do Sul, R$ 7.700,00 e R$ 175,00; na Bahia, R$ 6.300,00 e R$ 82,00; já no Distrito Federal, a desproporção é escandalosa, demonstrando o poder da burocracia pública: os 5% mais ricos têm rendimento de R$ 12.900,00 ficando os 5% mais pobres com R$ 151,00. A desigualdade de renda, na totalidade dos Estados, tem o perfil dos números exibidos naquela amostragem. Alagoas é onde esse diferencial é mais brutal, expresso com R$ 4.800,00 e R$ 67,00.

Nesse cenário devastador, o Estado diferencial entre as duas faixas de renda é Santa Catarina. Longe de ser um paraíso é quem apresenta números sobre a desigualdade da renda, 30% menores do que a média do país. A renda mensal média dos 5% mais ricos é de R$ 6.400,00 e os 5% mais pobres é de R$ 285,00. A realidade catarinense não se expressa apenas nesses números, ainda muito distantes do que deveria ser uma sociedade com efetiva justiça social, mas retratam um nível superior à media das outras 26 unidades federativas brasileiras. Nas suas diferentes regiões, vem demonstrando o que pode ser feito para o Brasil superar o estágio de brutal concentração de renda. Ainda agora com o Brasil mergulhado na recessão econômica, da qual vem saindo aos poucos, o desemprego nacional é de 12,4%. Já em terras catarinenses, atestado pelo IBGE, o desemprego é de 6,7%. Fruto de um ajuste produtivo, da modernização industrial, da competitividade e da atração de novas empresas de bases tecnológicas. A educação é a matriz sustentadora dessa realidade.

Se o setor produtivo tem um vigor acima da média brasileira, exibe no seu vasto e belo litoral uma estrutura turística inigualável, fruto de trabalho criativo expressado na fisionomia de um povo que tem o prazer de servir ao turista a alegria de viver. Hotéis dos mais sofisticados aos mais simples, pousadas surpreendentes pelo nível de conforto, restaurantes com padrão internacional, em Florianópolis, Camboriú, Itapema, Barra Velha, Joinville, Blumenau e ao longo das suas praias belíssimas.

Nesse instante da vida nacional de descrença no futuro, de profunda crise moral, de valores abandonados e contestados, a terra de Anita Garibaldi exibe padrão econômico, social e de lazer que deve merecer sérias reflexões para os brasileiros que acreditam no futuro.

Esta é a lição do professor paranaense Hélio Duque que entende de Paraná, de Santa Catarina e do Brasil.

*Por Sebastião Nery

Cristiane Brasil, a não querida

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Qualquer um pode ser condenado na justiça trabalhista, mas a ministra do trabalho, não.

E não pode, porque será ela a cobrar que todos cumpram as normas que delimitam a relação entre patrões e empregados.

A deputada Cristiane Brasil não pode exigir dos outros o que não pratica.

Simples assim.

Mas, quem regula pelas extremidades o conceito de moralidade só se preocupa em tirar proveito de situações.

A deputada que militou pelo golpe pra derrubar a presidenta eleita tinha a moralidade pública como tônica de seus discursos. Tinha, não tem mais.

É ferrenha defensora das reformas aprovadas com chantagens e troca de vantagens no governo corrupto.

Não se constrange em ocupar um cargo com o rótulo de mal exemplo por estar incluída no Banco Nacional de Devedores Trabalhistas (BNDT).

A fruta não caiu longe do pé. Cristiane herdou do pai Roberto Jefferson o cinismo, que mesmo condenado por corrupção, com naturalidade ostenta o poder de indicação a ministério.

O descaramento de pai e filha foi barrado pelo Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2), no Rio de Janeiro que manteve suspensa a posse.

A deputada pode experimentar o ‘tchau querida’ que dedicou à ex-presidenta, sem sequer sentar na cadeira de ministra.

Que assim seja e breve.

*Por Luciana Oliveira

Um gordo chamado Jô

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RIO – Talvez o título mais correto fosse: “Um Gênio Chamado Jô”. Essa história está recontada no magnífico livro de Jô Soares e Matinas Suzuki Jr, “O Livro de Jô”, da Companhia das Letras, que tanto sucesso esta fazendo.

“A história mais famosa de Gilberto Amado foi relatada por Sebastião Nery no seu Folclore Político, envolvendo um diálogo entre ele e Getúlio Vargas. Aproveitamos esse caso em meu espetáculo “Brasil: Da Censura à Abertura, de 1980, que escrevi com Armando Costa e José Luiz Archanjo baseado no anedotário político nacional recolhido por Sebastião Nery, cujo elenco era composto de Marília Pera, Sylvia Bandeira, com quem eu estava casado então, Camila Amado, Marco Nanini e Geraldo Alves. Eis o trecho:

“- Presidente, eu quero ser governador de Sergipe.

– Por que, Gilberto?

– Porque eu quero. É a hora.

– Mas, Gilberto, tu, um homem tão grande, ser governador de um estado pequeno?

– Eu quero dirigir minha tribo, presidente. Isso é fundamental pra minha vida.

– Ora, Gilberto. Eu te conheço muito bem. Essa não pode ser a verdadeira razão.

– Claro que é, presidente.

– Não pode ser. Governar por governar? Isso não existe para um homem do teu tamanho, da tua grandeza.

– Tem razão, presidente. O senhor quer que eu diga, eu digo. Eu quero ser governador pra roubar, roubar, roubar do primeiro ao último dia!

(Andando de um lado para o outro) Roubar desesperadamente! Ouviu, presidente? Roubar! Roubar! Roubar!

*

Outra história esta em homenagem ao general Dutra:

Casado e calado. O presidente Dutra foi, talvez, o nosso político mais calado desde o tempo em que ele era ministro da Guerra. Levantava-se todo dia às quatro da manhã, fazia uma inspeção na Vila Militar e às seis e

Meia estava no ministério. Ia sempre acompanhado de um ajudante de ordens que nunca lhe ouvia a voz. Uma manhã, assim que ele chegou, o então major Humberto de Alencar Castello Branco (futuro primeiro presidente da ditadura militar), oficial de gabinete, perguntou ao ajudante de ordens, capitão Fragomeni:

– Então? Como é que está o homem hoje?

– Ótimo. Até conversou muito comigo.

– Não me diga!

– Conversou sim. Quando a gente chegou na altura do Maracanã, ele respirou fundo e disse: “Tá quente hoje!”.

– Puxa! E olhe que ele não é de fazer discurso longo de manhã.”

*

Dos 4 aos 79 anos, Jô é ator, escritor, diretor de teatro, músico.

Ele conta: “Em Paris, meu pai almoçava com Gilberto Amado e eu fui encontrá-los. O menu do restaurante da Maison de l´Amérique Latine variava conforme o dia da semana, oferecendo um prato típico dos países da América Latina. Sábado era o dia da feijoada e fomos nos encontrar com os brasileiros que viviam na capital francesa. Gilberto Amado estava lá com sua filha Vera e o genro, o famoso cineasta francês Henri-Georges Clouzot. A atriz Vera Clouzot, como ficou conhecida, aparecera em 1953, no ótimo filme realizado pelo marido, “O salário do medo”, que ganhou o Gran Prix no Festival de Cinema de Cannes e o Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim.

Apesar do sucesso de Clouzot, seu sogro, Gilberto Amado, homem de opiniões fortes, o detestava. A dada altura da feijoada o diretor se levantou para ir conversar em outra mesa, e Amado não perdeu tempo. Virou-se para Vera e falou:

– Por que você não põe chifres neste homem? Você tem que cornear este homem, ele é um chato!”

Rui e Neto entre farpas

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Nas confraternizações natalinas de fim de ano, Rui e Neto reuniram jornalistas, como sempre. Cada um falou dos feitos, mas, no tempero político, o filé, Rui disse que Temer persegue a Bahia com articulação de baianos; Neto evocou uma suposta ineficiência contábil do governo baiano, rebaixado por Temer, para justificar alguns atos. Neto diz que jamais faria perseguições com a Bahia, mas também diz que foi perseguido por Dilma, do BRT a outros convênios. E Rui cita obras já feitas, inclusive no metrô, que Temer caloteia R$ 150 milhões.

Em miúdos: até o Natal dos dois foi trocando farpas. É o cheiro de 2018.

Mas, se entre si eles não incorporaram o espírito natalino, nós estamos no embalo da maior festa cristã. Jamais iríamos atirar a primeira pedra, como ensinou o Cristo no caso da mulher adúltera.

Os dois estão certos no que se propõem.

Os entraves, segundo Rui

No papo de fim de ano com jornalistas, Rui Costa contou que em um dos encontros com os chineses disse a eles que no Brasil um dos entraves para investimentos é o Ibama.

– Eles perguntaram sobre a licença ambiental: ‘Demora quanto tempo?’. Eu disse que não tinha prazo. Também, depois, ainda tinha o Ministério Público, que pode ir à Justiça, que também não tem prazo para julgar. Aí, o chinês se espantou: ‘E você me chama para botar US$ 4 bilhões em um negócio que eu não sei nem quando vai começar?’.

Inidôneo – Aliás, Rui diz que vai aproveitar os contatos com os chineses para avisá-los que Sérgio Habib, o parceiro brasileiro na Jac Motor, ‘é inidôneo’. Habib é o que se comprometeu a botar a JAC em Camaçari, deu o bolo e agora anuncia que vai instalar em Goiás…

O pulo e o gato

Fábio Vilas Boas, secretário de Saúde do Estado, diz que a instalação da maternidade do Hospital da Criança, em Feira, foi um ‘verdadeiro pulo do gato’.

A questão: o Hospital da Criança, com capacidade para 300 leitos, só usava 158, quase a metade ficava ociosa. Foi esse o espaço aproveitado, com um investimento de apenas R$ 6 milhões.

– Vamos construir hospital idêntico em Camaçari que vai custar R$ 45 milhões.

A manutenção da maternidade em Feira vai custar R$ 2,5 milhões anuais.

Presente de aniversário – No encontro com a imprensa, anteontem, ACM Neto marcou data para inaugurar o Hospital Municipal de Cajazeiras: 29 de março, no aniversário de Salvador.

*POR LEVI VASCONCELOS

O bruxo da canção

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Eleito presidente, Tancredo Neves foi aos Estados Unidos e Europa. Passou pelo México. Augusto Marzagão, vice-presidente da Televisa, a maior televisão do México, organizou uma entrevista coletiva.

Desde a Copa de 70, quando o Brasil ganhou o tri com a maior seleção mundial de todos os tempos, os mexicanos são siderados pelo futebol brasileiro. Um jornalista perguntou a Tancredo:

– Presidente, é fácil ser eleito presidente da República no Brasil?

– É, sim. Difícil é ser escolhido técnico da seleção brasileira.

 

Eleito presidente da república, Jânio também deu suas voltas por ai:

Estados Unidos, Europa. Foi ao rancho de férias do recém eleito presidente John Kennedy. Na beira da piscina dois jovens senhores tomavam um drink. De repente Jânio percebe que eram Kennedy e Marzagão, já íntimos. Jânio se espanta:

– Esta demitido senhor Marzagão. No meu governo nenhum auxiliar vai à frente do Presidente.

Kennedy deu uma gargalhada e ficaram os três papeando à beira da piscina.

 

Quem entendia de Augusto Marzagão era Silvestre Gorgulho, amigo, aliado, irmão. O Brasil perdeu o humor e a competência do bruxo da comunicação.

Alto, elegante, culto, foi uma bela biografia internacional. Quando diretor do Instituto Brasileiro do Café em Trieste, na velha Iugoslávia, Marzagão conviveu com estadistas, jogava biriba com seu amigo Cardeal Giovanni Montini, de Milão, depois Papa Paulo VI. Tomava uísque com John Kennedy à beira da piscina de Camp David, casa de fim de semana dos presidentes americanos. Tinha um rol de amigos artistas e compositores na sua agenda cultural.

De volta ao Brasil, em 1965, Marzagão foi trabalhar na Secretaria de Turismo do Estado da Guanabara, onde conheceu o advogado Carlos de Laet que, atentamente ouviu seus planos para a realização, no Rio de Janeiro, de um Festival de Música Popular. O governador Negrão de Lima vibrou e apoiou. E assim nasceu o FIC – Festival Internacional da Canção.
Os FIC’s mudaram e enriqueceram, não só a música popular brasileira, mas a própria vida inteligente do País.

A nova musica brasileira e baiana, , João Gilberto, Gilberto Gil, Caetano Veloso, os Doces Bárbaros, nasceram ali.

Marzagão, em 1988, faz valer sua fama de Bruxo a serviço de Jânio Quadros (eleito prefeito de São Paulo) e, depois, secretário particular do Presidente José Sarney.
Seus textos, suas conferências, seus livros e suas anedotas estão ainda muito vivos. Tenho em meus alfarrábios o projeto que Marzagão preparou para fazer em Brasília um grande Festival Internacional da Canção.

Guardo em mim uma inesquecível lição dele cada vez mais verdadeira:
– O bom humor é a única qualidade divina do homem.

*Por Sebastião Nery

Gênero não é ideologia

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Nos últimos anos, pesquisadores e pesquisadoras dos Estudos de Gênero vêm sofrendo uma série de ataques (alguns, violentos) contra as temáticas que estudam e problematizam. A princípio, nada de novo, uma vez que os Estudos de Gênero foram durante muito tempo marginalizados por setores dentro das próprias universidades. No entanto, o aumento da propagação de discursos equivocados sobre o campo nos últimos anos, especialmente no Brasil, chama a atenção para um de seus principais combustíveis: a desinformação.

A fim de desfazer certas confusões – algumas mal-intencionadas – proponho discutir o que é, afinal de contas, o conceito de gênero. De uma forma simples, direta e acadêmica, pretendo contribuir para um debate bastante pertinente tanto no campo das pesquisas como nos debates públicos que ocorrem pelo país.

Gênero e Feminismos

Não é possível entender o que são Estudos de Gênero sem compreender o movimento feminista, que começa no cenário internacional no século XIX e reivindica direitos civis para as mulheres. É muito reconhecida a luta pelo direito ao voto, mas é importante lembrar que essa não era a única reivindicação – as mulheres tinham pouco direitos e muito pelo que lutar. A mulher casada, por exemplo, era considerada pela lei brasileira “incapaz” e sob tutela do marido – o que somente foi alterado na legislação em 1962, com a Lei 4.121.

Diversidade e respeito são questões importantes na perspectiva social dos Estudos de Gênero.

No espaço universitário, os feminismos – no plural devido à heterogeneidade do movimento – iniciaram uma trajetória em meados do século XX. Na História, por exemplo, a incorporação da categoria mulher está relacionada a todo um movimento historiográfico de renovação no campo de conhecimento. A história demográfica, a história da família e a ideia de uma história “vista de baixo”, na qual também deveriam ser contadas as vidas de pessoas comuns, de operários e operárias, de camponeses e camponesas, entre outros, contribuíram significativamente para a compreensão de que era necessário se escrever sobre Mulher – nesse primeiro momento ainda no singular, ou seja, ainda pensada como uma categoria homogênea.1

Entre o fim dos anos de 1970 e o início da década de 1980 as historiadoras feministas – principalmente ligadas ao feminismo norte-americano – começaram a problematizar as particularidades que existiam entre elas próprias. A categoria Mulher já não dava conta de explicar a multiplicidade de experiências e subjetividades. Joana Maria Pedro argumenta que as mulheres negras, particularmente, questionaram o gesto excludente da escrita da História das Mulheres, revelando as fraturas internas não só da História, mas do próprio feminismo acadêmico ao mostrar as armadilhas e ilusões da categoria Mulher. Desde então, feministas comAngela Davis e Bell Hooks, colocaram o dedo na ferida ao dizer que as mulheres não viviam da mesma forma a experiência de ser mulher. Outras variáveis precisavam ser levadas em consideração, como classe, cor, escolaridade, dentre outros aspectos que precisavam ser compreendidos.

Gênero: que negócio é esse?

É neste contexto que chegamos à questão do uso da palavra Gênero no final da década de 1980. Quando Joan Scott publicou seu famoso artigo “Gênero: uma categoria útil de análise”, na American Historical Review, em 1986 (clique para ver o original em inglês e traduzido para o português em 1990), ela visava demonstrar que a imensa produção da História das Mulheres havia chegado a um impasse: ou ficava numa categoria suplementar ao mainstreamhistoriográfico, ou forçava uma transformação no interior da disciplina e do conhecimento histórico. Defendendo a segunda posição, Scott então propõe o gênero como categoria de análise e não como um tema ou um objeto. E como categoria, ela propõe a perspectiva de gênero para análise, inclusive, das estruturas e dos discursos políticos:

O gênero é uma das referências recorrentes pelas quais o poder político tem sido concebido, legitimado e criticado. Ele não apenas faz referência ao significado da oposição homem/mulher; ele também o estabelece. Para proteger o poder político, a referência deve parecer certa e fixa, fora de toda construção humana, parte da ordem natural ou divina. Desta maneira, a oposição binária e o processo social das relações de gênero tornam-se parte do próprio significado de poder; pôr em questão ou alterar qualquer de seus aspectos ameaça o sistema inteiro (SCOTT, 1990, p.92).

Scott aponta, de maneira muito interessante, para um dos eixos mais polêmicos que os Estudos de Gênero enfrentam hoje no Brasil. Não se trata de negar as diferenças sexuais e corporais entre homens e mulheres, mas de compreendê-las não como naturais e determinadas, mas como relações sociais e de poder, que produziram hierarquias e dominação. Para Scott, gênero é a organização social das diferenças sexuais. É um saber que estabelece significados para as diferenças corporais.

Já em 1989, Judith Butler publicaGender Trouble“, que no Brasil foi lançado em 2003 com o título “Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade, mostrando o caráter performativo do gênero. Nele, Butler questionou a ideia de que sexo está exclusivamente ligado à biologia e de que gênero relacionado à cultura, como o debate era apresentado até aquele momento por boa parte das pesquisadoras e pesquisadores da área. Ela questionou a ideia de que o gênero fosse uma espécie de “interpretação cultural do sexo”.

Para Judith Butler, a ideia de performatividade de gênero compreende a noção de que sexo e gênero são discursivamente criados e que, ao se desnaturalizar o sexo, deve-se também desnaturalizar o gênero. Portanto, não se trata de negar a existência de sexo ou de gênero, mas de historicizar tais diferenças, procurando analisar as estratégias discursivas que as consolidaram. Nesse ponto, a meu ver, encontra-se uma das contribuições mais significativas da obra de Judith Butler: dar visibilidade ao fato de que existem corpos que “importam” – corpos enquadrados nsistema heteronormativo – e corpos que “não importam” – o que a autora chama de corpos abjetos. Esses, dentro da lógica binária, podem ser vistos como “corpos desviantes”, culturalmente inintelegíveis e que ameaçam as estruturas de poder. Pessoas gays, lésbicas, transexuais e intersexuais acabam por demarcar fronteiras que não deveriam ser cruzadas dentro do sistema heteronormativo e, dentro desse sistema excludente, seus corpos não são aceitos, ou melhor, a existência dessas pessoas não é aceita. Tal exclusão acabou por colocar em risco a vida dessas pessoas, gerando intolerância, mortes e inúmeras outras violências.

Assim, Butler propôs a reflexão sobre as armadilhas na naturalização do gênero.  De lá para cá, se passaram 30 anos. E todo esse período foi de muita luta para a consolidação de um campo de investigação acadêmica.2

A expressão “ideologia de gênero”, que tanto tem sido empregada nos dias de hoje para criticar os Estudos de Gênero, não é uma categoria acadêmica ou um objeto de pesquisa. Como vimos, os pesquisadores e pesquisadoras que se dedicam o entendem justamente no contrário: que gênero não é uma ideologia. Para eles, a expressão “ideologia de gênero” é estranha, uma anomalia. Quem fala (e muito) em “ideologia de gênero” são os movimentos conservadores – muitas vezes com explicações falsas e sem fundamento.

Estudos de gênero hoje

Os Estudos de Gênero nunca tiveram como objetivo modificar a sexualidade de ninguém – até porque os pesquisadores e pesquisadoras da área não acreditam que a orientação sexual ou a identidade de gênero das pessoas sejam modificáveis como querem fazer crer seus detratores. Nunca defenderam pedofilia ou incentivaram a erotização infantil. Nunca foram “ideologia”.

Estudar Gênero significa estabelecer um recorte sobre aspectos da realidade social existente – no presente e/ou no passado – que têm como peça fundamental a organização de papeis sociais baseada numa imagem socialmente construída acerca do que foi consolidado como sendo masculino ou feminino por exemplo. Portanto, procura compreender como a ideia de uma masculinidade hegemônica influencia nas relações e restringe as opções sociais de mulheres, de crianças e dos próprios homens, e propor estratégias de libertação. Aqui, nos Estudos de Gênero,  estão as pesquisas sobre violência doméstica, violência sexual, feminicídio, desigualdade econômica e outras assimetrias relacionadas às desigualdades de  gênero.

Aliás, os Estudos de Gênero possuem como uma de suas principais características a interdisciplinaridade, o que amplia seus temas de pesquisa. Diferentes áreas, não só das Ciências Humanas, mas também as Ciências Sociais Aplicadas, as Ciências da Saúde e as Ciências Exatas vêm se dedicando às pesquisas em Gênero.

Trata-se, ainda, de respeitar as diferenças sexuais e enxergar sujeitos históricos que têm sido apagados das narrativas históricas: gays, lésbicas, trans, intersexuais e bissexuais. Significa compreender que o “mundo privado” também é político e que, portanto, o direito à cidadania deve efetivamente ser de todas, todos e todes.

Pesquisas sobre sexualidades existem dentro dos Estudos de Gênero, porém – e parece ser necessário repetir – não se trata de conspirar para mudar a orientação sexual de ninguém. As pesquisas sobre sexualidade variam em quantidade proporcional e, na maioria das vezes, procuram analisar trajetórias, sociabilidades ou mesmo subjetividades dos indivíduos relacionando tais conceitos à sexualidade – sejam os indivíduos heterossexuais ou não.

Também são temas dentro dos Estudos de Gênero: a maternidade, os sentimentos, a religiosidade, a assistência, a participação política, os racismos, as interseccionalidades e o próprio movimento feminista, isso só para citar algumas poucas áreas.

Não existe ideologia de gênero! E se os Estudos de Gênero puderem impactar de forma transformadora em nossa sociedade, será na construção de um mundo mais justo e igualitário. Um mundo em que meninas não sejam mortas por namorados. Um mundo sem violência doméstica, sem exploração sexual. Um mundo em que ninguém tenha medo da igualdade de direitos e deveres.

Notas

1 É importante destacar, assim como fez Joana Maria Pedro (2011), que não existe, pelo menos no Brasil uma total linearidade entre as categorias mulher, mulheres, gênero. Tais palavras/conceitos/categorias, transitam em títulos de artigos e projetos variados, sem um rigor cronológico.

2 Os Estudos de Gênero hoje figuram como uma das áreas mais consolidadas nas universidades internacionais e brasileiras. No Brasil contam com revistas especializadas de alto impacto comoREF (Revista de Estudos Feministas) vinculada à UFSC e os Cadernos Pagu, da UNICAMP, dentre inúmeras outras especializadas no tema. Além disso, a área já possui um curso de bacharelado específico (Bacharelado em Gênero e Diversidade, na UFBA), disciplinas de graduação e pós-graduação em várias áreas, além de inúmeros projetos de pesquisa e extensão.

Por Georgiane Garabely Vázquez


O trono de Willian

/ Artigos

Velhinho miúdo de cabeça grande e longos cabelos e bigodes brancos, ele não nasceu em Estrasburgo. Nasceu perto, do outro lado do Reno, na Alemanha, onde o Meno se encontra com o Reno, em Mainz, que portugueses, espanhóis, italianos chamam de Mogúncia. Nasceu em 1400 e também não morreu em Estrasburgo, mas na sua Mainz, em 1468.

Mas é em Estrasburgo, à beira do Reno, na maravilhosa cidade, que já foi romana, germânica, alsaciana, francesa, alemã, de novo francesa e ocupada quando Hitler ocupou a França, que está seu trono, todo em bronze, no meio da praça, sobre um pedestal, segurando uma página de sua primeira Bíblia:

– “Et la lumière fut”. “E a luz se fez”.

E Gutenberg iluminou para sempre a humanidade, criando a imprensa.

E, como geralmente a imprensa, sempre perseguido. Viveu correndo entre Mainz (Mogúncia) e Estrasburgo. Operário modesto, empregado nos fundos do palácio do arcebispo, começou a fazer pesquisas, tomou dinheiro emprestado, que não pagou, e por isso foi perseguido.Um dia inventou uma maquina tosca que acabou derrubando todo o império da Igreja Medieval.

É arrepiante entrar na pequena oficina, lá da sua Mainz (Moguncia), em que ele pesquisou 25 anos seguidos, para afinal, em 1432, 500 anos antes de eu nascer, editar pela primeira vez uma pagina impressa. Nos mais mínimos detalhes, foi criando um a um os tipos gráficos, fazendo a composição à mão, inventando a prensa de imprimir. Ameaçado por motivos políticos, fugiu de Estrasburgo e trabalhou como ourives.

De volta a Mainz em 1448, em 1455 terminava a primeira edição de um livro : a Bíblia, que por isso se chama a “Biblia de Mogúncia”. Apesar disso, de escolher a Bíblia para primeira obra impressa, acabou novamente perseguido. Tomaram-lhe os exemplares impressos, expulsaram-no do palácio, prenderam-no, alegando que não havia pago as dividas.

Na verdade, a nobreza e o clero medieval sabiam que ali estava o fim de seu Império de mil anos. Gutenberg, o velhinho miúdo de cabeça grande, tinha dado à humanidade seu melhor pedaço de pão : a palavra impressa, onde ela poderia alimentar a liberdade de pensar e de existir.

Seu monumento é de 1840, quatro séculos depois de sua invenção. Numa cidade bem própria : além de belo e poderoso centro cultural, Estrasburgo é a capital política da Europa, sede do Conselho da Europa e do Parlamento Europeu. Em Bruxelas funciona o Poder Executivo da União Européia. Mas as decisões políticas, coletivas, são tomadas em Estrasburgo.

A França teve razão de lutar séculos por ela, disputando-a com a Alemanha. Estrasburgo é contemporânea da humanidade. Desde a Idade de Bronze já lá morava uma comunidade de pescadores. Conquistada pelos romanos, que a chamaram de “Argentoratum” (“cidade da prata”), no ano 12 antes de Cristo, logo virou posto militar para vigiar as tribos germânicas.

Conta a historiadora Annamaria Giusti :

– “Na Idade Media, a maior autoridade eram os bispos. Em 1262, foi liberada da tutela deles. Em 1300, construíram uma ponte sobre o Reno, para negociar madeira, vinho, algodão. No século 15, transformou-se numa Republica Livre, governada por um Conselho de Representantes. E logo aderiu à Reforma Protestante, virou polo cultural com a presença de pensadores, pregadores e perseguidos políticos da França, Itália, Suíça,etc”.

Toda minha solidariedade ao exemplar William Waack, também ele vítima do atraso como Gutenberg foi.

*Por Sebastião Nery

pos. Em 1262, foi liberada da tutela deles. Em 1300, construíram uma ponte sobre o Reno, para negociar madeira, vinho, algodão. No século 15, transformou-se numa Republica Livre, governada por um Conselho de Representantes. E logo aderiu à Reforma Protestante, virou polo cultural com a presença de pensadores, pregadores e perseguidos políticos da França, Itália, Suíça,etc”.

Toda minha solidariedade ao exemplar William Waack, também ele vítima do atraso como Gutenberg foi.

O povo não perdoa

/ Artigos

Político é capaz de consertar relógio de pulso usando luvas de boxe. A metáfora explica bem a capacidade impressionante que a classe política brasileira tem de se manter aderente ao poder, sobrevivendo como protozoários oportunistas em ambientes que lhe é favorável. Isso explica, por exemplo, a adesão das amebas golpistas do PMDB à provável candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Por isso considero precipitado e inoportuno o sinal emitido pelo ex-presidente, de perdoar aqueles que avalizaram o golpe e mergulharam o Brasil na mais grave crise econômica, política e social dos últimos 60 anos. Quem tem o patrimônio eleitoral na casa dos 35% de intenções de voto, pode e deve dar as cartas desse jogo. Quem precisa de votos são os deputados, senadores e governadores do PMDB que sustentam Michel Temer no governo, e que dificilmente voltarão aos seus postos em 2019. São eles que devem pedir perdão à sociedade brasileira.

Na minha coluna anterior, citei a grande vantagem competitiva de Lula sobre os demais candidatos, por ser o único que sabe levar uma mensagem de esperança para o povo. Esperança é uma pedra preciosa frágil, capaz de ser estilhaçada por uma simples frase mal colocada. Lula não tem de perdoar ninguém para ser presidente novamente. Por qual motivo então se disporia a ser tábua de salvação para essa gente? Se o pensamento é a governabilidade, então que o faça com os sobreviventes desse maremoto político que afogará mais de 70% da atual representação do parlamento brasileiro.

Os pecadores, esses sim, é que devem humildemente pedir perdão ao Lula. No entanto, nenhum deles sinalizou arrependimento pelos crimes que cometeram. Blindaram Michel Temer por duas vezes para evitar um processo de investigação pelo Supremo. Destruíram o principal legado getulista de proteção ao trabalhador, com uma reforma que suprime direitos e reduz salários a níveis de escravidão. Estão prontos para votar a reforma da Previdência na forma do “morra antes de receber qualquer benefício”. Entregaram o patrimônio do país a troco de banana para grupos internacionais. Essa turma merece perdão?

A força de Lula vem da esperança. Ao sinalizar a possibilidade de trazer para essa raia aqueles que não possuem esse patrimônio, renuncia seu maior trunfo e cai na vala comum. Não tenho a menor dúvida de que será eleito presidente do Brasil em 2018. Mas agora, meu caro, cada um que responda ao seu eleitor pelos atos que praticou.

Políticas de aliança são recursos históricos no processo eleitoral brasileiro. Mas é preciso compreender que esse paradigma mudou. Em 2018, a renovação e a clareza de posições serão  marcas determinantes para motivar o eleitor a confiar o voto em alguém. Que Renan Calheiros, Eunício Oliveira, Romero Jucá e tantos outros parasitas políticos se entendam com seu eleitorado. Tudo o que eles estão fazendo de pernicioso contra a nação brasileira é dividendo a favor da volta de Lula à presidência. A hora, portanto, é de renovação política e consolidação de alianças com novas lideranças políticas nos estados e municípios. De nada vai valer o perdão de Lula aos golpistas, se o povo já os condenou.

POR CELSO READER

Reeleição: mãe da corrupção

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ÃO

Há 2.500 anos, na Grécia, Péricles chamou o povo para a praça pública e mandou decidir tudo pelo voto. Começava ali a civilização. Cada um valendo um. O voto é o homem como um animal igual. É a mais antiga e duradoura invenção social da humanidade.

Com a roda, a pólvora, a eletricidade, o rádio, a televisão, a Internet, o homem mudou o mundo. Mas quem mudou o homem foi o voto. O voto fez o homem ser e se saber igual. Não enche barriga, mas derruba as tiranias.

A emenda da reeleição de Fernando Henrique foi comprada. A imprensa provou. Todo mundo sabe. Deputados renunciaram ao mandato com a boca na “botija” de Sergio Motta.

A reeleição é uma rima de cão. É a vitória irrefreável da corrupção em todos os níveis: presidência, governadores e prefeitos.

Quando Fernando Henrique comprou a reeleição, Paulo Brossard, deputado, senador, ministro da Justiça e do Supremo Tribunal, escreveu :

– “A reeleição é um insulto à Nação, aos 150 anos do Brasil independente, a todos os homens públicos que passaram por este país. Se os generais tivessem querido, também teriam sido reeleitos. Não faltariam apoios.

Pois bem. Foi preciso que chegasse à presidência da Republica não um militar, não um general, mas um civil, não um homem de caserna, mas um professor universitário, para que o Brasil regredisse ao nível mais baixo da América Latina em matéria de provimento da chefia do Estado.

A Constituição brasileira, na sua sabedoria, proibiu a reeleição dos presidentes. Sempre se vedou a eleição de Presidente para o período imediato.

Bastou um presidente ambicioso e sem senso de respeito à visão histórica nacional, para que a Constituição mudasse a favor de seu intento”.

Josafá Marinho, senador, foi para a tribuna mostrar o crime da reeleição:

  1. – “A Constituição de 88 instituiu a inelegibilidade absoluta, para os mesmos cargos, inclusive o presidente da Republica. Estipula a inelegibilidade relativa para os titulares que pretendam “outros cargos”, obrigando-os a renunciarem até seis meses antes do pleito.
  2. – “Se o titular dos postos executivos está obrigado a renunciar para habilitar-se à eleição de “outro cargo”, por maior razão lógica há de ser compelido ao afastamento definitivo para a reconquista do “mesmo lugar”.
  3. – “O fundamento moral e político de resguardo da liberdade do voto e de igualdade entre os candidatos, que o força a deixar o cargo pretendendo “outro”, cresce se seu propósito é ser reconduzido ao “mesmo” posto, de onde pode exercer influência preponderante no processo eleitoral”.

Não adiantou a reação dos dois ilustres juristas e da maioria da Nação. Fernando Henrique “ronivonou” o Congresso e a reeleição foi comprada.

(O ex-deputado RONIVON Santiago (ex-PFL, PMDB e PP) foi mascate da reeleição. O ex-deputado e delator da Lava Jato Pedro Corrêa (PP-PE) revelou que Ronivon admitiu ter recebido R$ 200 mil para apoiar a reeleição).

A reeleição é o princípio e o fim de todo tipo de corrupção por um motivo claro: no exercício do poder governadores, presidente e prefeitos têm muito mais força para negociar obras, superfaturar projetos e multiplicar apoios com dinheiro público. O mensalão mostrou isso e o Petrolão tirou a prova dos nove, comprovando que reeleição rima com corrupção no mais alto grau de depravação.

Voto e alternância de poder é a mais antiga e duradoura invenção social da humanidade.

POR SEBASTIÃO NERY

O Primeiro milagre de Brasília

/ Artigos

RIO – “Três dias antes de morrer, Juscelino viera de sua fazendinha em Luziânia e pernoitara no apartamento do primo Carlos Murilo, em Brasília. Estava triste e deprimido por tantas injustiças e perseguições, e fez a esse seu primo e meu xará a seguinte confissão que, autorizado por ele, agora, pela primeira vez, vou revelar:

– “Meu tempo, aqui na terra, está acabado. Tenho o quê, de vida? Mais dois, três ou cinco anos? O que eu mais quero agora é morrer. Não tenho mais idade para esperar. Meu único desejo era ver o Brasil retornar à normalidade democrática. Mas isso vai demorar muito e eu quero ir embora”.

Estava sem dinheiro e tomou 10 mil cruzeiros emprestados. Tendo Ulysses Guimarães e Franco Montoro como companheiros de voo, viajou para São Paulo e desceu em Guarulhos, porque o aeroporto de Congonhas estava fechado. Ficou hospedado na Casa da Manchete, em São Paulo”.

 

“No dia seguinte, JK despediu-se de Adolfo Bloch, que depois revelava:

– “Ele deu-me um abraço tão forte e tão prolongado que parecia estar adivinhando ser aquele o nosso ultimo encontro. E chegou a mostrar-me o bilhete da Vasp, como prova da sua viagem, naquela noitinha, para Brasília”.

E morreu dormindo. Mas, desde a véspera, havia telefonado para seu fiel motorista, Geraldo Ribeiro, pedindo-lhe que fosse a São Paulo busca-lo de carro, e marcando um encontro no posto de gasolina, quilometro 2 da Dutra.

Pergunta-se hoje : por que Juscelino estava despistando e escondendo a sua real intenção de não ir para Brasília e sim de retornar ao Rio? Não queria que dona Sarah soubesse? Seria algum encontro amoroso?

E era”.

 

Esta é uma das muitas, numerosas histórias contadas pelo veterano jornalista e acadêmico Murilo Melo Filho (nasceu em Natal, com a revolução de 30), com mais de meio século de redações, em seu livro, “Tempo Diferente” (primorosa edição da Topbooks, sobre 20 personalidades da política, da literatura e do jornalismo brasileiro:

– “Naquela nossa primeira noite em Brasília, após um dia de calor escaldante, os engenheiros estavam na varanda do Catetinho, em torno de uma garrafa de uísque, que era bebido ao natural, isto é, quente, porque em Brasília não havia ainda energia elétrica e, portanto, não havia gelo, que era artigo de luxo. Juscelino, presente, comentou :

– Vocês sabem que eu não gosto de uísque. Mas que uma pedrinha de gelo, aí nos copos, seria muito bom, seria.

Nem bem ele acabou de pronunciar essas palavras, o céu se enfaruscou e uma chuva de granizo despencou sobre aquele Planalto, levando os boêmios candangos a aparar as pedras, jogar nos copos e tomar uísque com gelo”.

Era o primeiro milagre de Brasília.

 

E este bilhete de Adolfo Bloch a Carlos Murilo, já na “Manchete” em Brasília:

– “Carlos Murilo, ai vai esta lancha para você fazer relações públicas no lago de Brasília. Não faça economia em relações publicas. Nós, os judeus, perdemos o Cristo por falta de relações públicas. E fizemos um mau negócio, porque um homem como aquele não se perde”.