Grossas grossuras

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Uma tarde, no Império, enquanto passeava a cavalo, o Imperador Dom Pedro II caiu do cavalo. O Rio se encheu de boatos. O Imperador estava mal, seria internado e, quem sabe, talvez tivesse que ir tratar-se em Lisboa ou Paris. Ainda não havia Incor, Sírio-Libanês, etc.

Os boatos continuaram. O Imperador apareceu na sacada do Paço Imperial apoiado em duas “muletas”. O jornal “Aurora Fluminense”, dirigido por Evaristo da Veiga, nosso bravo patrono, nome da rua onde está hoje o Sindicato dos Jornalistas do Rio, publicou que “o Imperador apareceu na sacada do Paço apoiado em duas “maletas”. No dia seguinte, o “Aurora” consertou:

– “Ontem, por lamentável equívoco, nosso jornal publicou que o Imperador apareceu na sacada do Paço Imperial apoiado em duas “maletas”. Na verdade, o Imperador estava apoiado em duas mulatas”.

A emenda ficou pior do que o soneto.

Quando presidente da Republica, Sarney veio ao Rio e foi xingado por um grupo de brizolistas que quebrou as janelas de um ônibus da Presidência onde ele estava. Na TV Manchete, a jornalista Jacyra Lucas se atrapalhou e disse que ele foi “hospitalizado” em vez de “hostilizado”.

Com Sarney não foi nem “muleta”, nem “maleta”, nem “mulata”. Foi mesmo a “maleita” do Poder.

Negro, alto, elegante, Leopold Senghor (1906-2001) foi o grande heroi do Senegal, desde quando colônia francesa. Poeta, teórico da “negritude” e da poesia africana, formado na Sorbonne, professor em Dacar, deputado na Assembleia Nacional da França, em 58 ajudou a fundar o PUA (Partido da Unidade Africana).

Liderou a independência do Senegal, prendeu o ditador Mamadou Dia e em 1960 foi o primeiro presidente eleito de seu pais.

Em 1965, Senghor esteve no Brasil como presidente. Ademar de

Barros era governador de São Paulo. O programa elaborado pelo Itamaraty previa uma visita ao Estado. Senghor, conhecido por sua cultura, falava diversas línguas, inclusive o português, ficou bem à vontade no Brasil.

Quando o chefe do cerimonial do Palácio dos Bandeirantes anunciou a presença do visitante, Ademar gritou lá de dentro:

– Manda o crioulo entrar.

Senghor ouviu, mas fingiu que ignorava o português e cumprimentou Ademar em francês. Ademar, que também falava varias línguas, continuou com suas irreverências, conversando em francês com o presidente e entremeando a conversa com frases em português:

– Estou maluco para ver as canelas desse crioulo. Se forem finas e de calcanhar alto, ele é bom de enxada, conforme dizia meu avô na fazenda.

Ademar levou-o a visitar a cidade, a Assembleia, o Ibirapuera, os cartões de visita. No dia seguinte, foi até o aeroporto de Congonhas, de onde Senghor seguiu para Brasília. Depois, Ademar disse aos jornalistas:

– Vejam só. Não sei o que esse pretinho veio fazer aqui. Comprar o quê? Assinar o quê? Nem sei onde fica o Senegal.

Senghor vingou-se.Contou tudo no livro que escreveu sobre o Brasil.

*Por Sebastião Nery

Ibope vem sem surpresas

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A terceira pesquisa Ibope-TV Bahia, ontem divulgada, não trouxe maiores surpresas. Confirma Rui Costa favorito, sempre pontuando para cima, e levando a reboque Angelo Coronel para o Senado.

Se a tendência se mantiver, teremos Rui reeleito com folga, com mais do triplo dos votos de todos os seis demais concorrentes somados (hoje está dando, no Ibope, 61% a 15%), e levando de lambuja Angelo Coronel.

Zé Ronaldo subiu para 10%, mas ainda longe de atingir pelo menos os 25% de petistas e carlistas históricos.

Na banda presidencial, Fernando Haddad (PT) liderando com folga, e Bolsonaro (PSL) atrás. O candidato de ACM Neto, Geraldo Alckmin (PSDB), empacou lá nos 6%.

No cenário baiano, a disputa é insossa.

Por Levi Vasconcelos, jornalista político, diretor de jornalismo do Bahia.ba e colunista de A Tarde.

Uma sociedade de alienados

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A intolerância tomou conta das redes sociais, dos grupos de amigos e dos encontros familiares. Não se pode nem se deve tocar em assunto que tenha conotação política que se criam constrangimentos e que afloram sentimentos inimagináveis que só podem ser justificados pelos mais simples complexos de infância.

Quer ser politicamente correto? Não fale de política! Não se posicione! Não tenha ideias e o que é pior, não argumente. Percebe-se nitidamente a onda do “não quero ouvir mais nada”, do “não suporto que me contrarie”.

Os cegos não veem e os mais instruídos se fazem de surdos. É um caminho mais fácil! Para que contrariar? Para que estimular a reflexão de quem pensa diferente?

Não! É proibido!

Será que o ser humano se condiciona tanto a aceitar apenas o que lhe convém ? Será que na hora que falta discurso, sobra ignorância?

O debate de ideias é tão salutar! E por que fugir? O que quer esconder? A quem quer enganar?

Não é preciso ser filósofo ou doutor para passar suas percepções políticas, muito menos, para compreender aquilo que o outro acredita, expõe.

E para que tanto ódio?

Quando faltam argumentos, sobram agressões. Como é difícil ser democrático? Como é difícil perceber o outro, principalmente quando o que ele tem a dizer não lhe agrada.

Que tal exercitarmos o poder de compreensão? Que tal darmos oportunidade ao amigo, ao irmão que tem uma posição distinta, de se expressar?

Será medo? Temor de não saber fazer um juízo de valor. Imaginar que se está perdendo a discussão. Mas que bobagem!

Desde quando os iguais evoluem? A riqueza reside nas diferenças, de pensar, de agir, de se relacionar.

Paciência e coragem devem fazer parte do dicionário.

Paciência para oportunizar que o outro se expresse e coragem para admitir que muita vezes o rumo tomado só nos leva a uma intolerância ainda maior: perder a oportunidade de saber o que o outro tem a dizer. Pode ser importante!

Vamos despertar!

Não perca essa chance!

Karla Borges

Coluna: Economia

Professora de Direito Tributário, graduada em Administração de Empresas (UFBA) e Direito (FDJ) ,Pós-Graduada em Administração Tributária (UEFS), Direito Tributário, Direito Tributário Municipal (UFBA), Economia Tributária (George Washington University) e Especialista em Cadastro pelo Instituto de Estudios Fiscales de Madrid.

Assim mata um presidente

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– Uma semana depois da posse de Jânio Quadros na presidência da Republica, em 1961, o jornalista Raul Ryff, secretário de imprensa do vice-presidente João Goulart, ligou para o jornalista José Aparecido, secretário particular de Jânio:

– Aparecido, durante o governo do Juscelino, o Jango, como vice-presidente, sempre teve um avião da FAB à sua disposição. Agora, no governo do Jânio, o ministro Grum Moss, da Aeronáutica, tirou o avião do vice-presidente. Acontece que ele está esperando a mãe dele, que chega ao Rio às 17 horas, e depois não haverá mais nenhum avião de carreira para Brasília. E ele tem uma reunião política em Brasília à noite. Você poderia conseguir um avião para levar o vice-presidente a Brasília?

Aparecido falou com o general Pedro Geraldo, chefe da Casa Militar, pediu para ele providenciar o avião, e comunicou a providência a Jânio, que aprovou. Às quatro da tarde, Ryff ligou de novo para Aparecido:

– Como é, tchê? E o avião?

– Já está à disposição do vice-presidente aí no Rio.

Não estava. Aparecido foi ao general Pedro Geraldo, que acabava de receber um telex do ministro da Aeronáutica lamentando não poder atender porque a FAB não tinha nenhum avião disponível. Aparecido foi a Jânio. Os dois tinham entendido tudo. Jânio arregalou os olhos:

– Foi bom que tivesse acontecido logo na primeira semana. Você vai ver que não ficaremos aqui um minuto sem autoridade.

Janio mandou chamar o general Pedro Geraldo:

– General, faça-me um favor. Volte a comunicar-se com o senhor ministro da Aeronáutica e lhe transmita a seguinte instrução: faça descer o primeiro avião que sobrevoar o Rio de Janeiro, nacional ou estrangeiro, desembarque os passageiros e ponha-o à disposição do senhor vice-presidente da República.Trata-se de uma ordem do presidente da República

Em cinco minutos a Aeronáutica pôs um avião à disposição de Jango.

A Aeronáutica, naqueles tempos, e tantos anos seguidos, era um partido político, uma sublegenda da UDN. E de armas na mão. Só no governo de Juscelino, no começo e no fim, fez dois levantes armados, imediatamente sufocados pela autoridade e energia do marechal Lott.

No segundo governo de Vargas (1951 a 54), não era só a Aeronáutica. A maioria das Forças Armadas (Exercito, Marinha e Aeronáutica) era inteiramente encoleirada pela ininterrupta pregação golpista de Carlos Lacerda e da Banda de Musica da UDN, até desaguar afinal no golpe americano-udenista-militar de 1964.

Quando Getulio assumiu em 1951, depois da segunda derrota do brigadeiro Eduardo Gomes (em 45 e em 50), a UDN viu que no voto não chegaria ao governo: havia perdido para Dutra em 45 e para Vargas em 50 e certamente perderia em 55 para os herdeiros de Vargas,Juscelino e Jango.

E começou a conspirar freneticamente nos quartéis.

O primeiro passo seria inviabilizar João Goulart, o filho político de Vargas. Presidente nacional do PTB e ministro do Trabalho a partir de junho de 1953, Jango tinha estudos da Fundação Getulio Vargas   mostrando que o aumento salarial de 14%, dado em dezembro de 1951, era ridículo diante do aumento do custo de vida, que tinha sido de 100%.

E Jango negociou com os sindicatos um projeto de aumento de 100% do salário mínimo, igual ao da inflação: de 1.200 para 2.400 cruzeiros.

– ”Em fevereiro de 1954, 82 coronéis e tenentes-coronéis assinaram um memorial afirmando que possíveis aumentos de salários provocariam a elevação do custo de vida, agravando a situação dos baixos vencimentos nos quadros no Exército, que veria dificultado o recrutamento de oficiais.   Vargas exonerou Goulart e o general Espírito Santo Cardoso… E no dia 1º de maio anunciou o aumento de 100% do salário mínimo” (DHBB-FGV).

Em quatro meses, Vargas era empurrado para o suicídio.

*Por Sebastião Nery

O jogo começou

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Passado a Copa da Rússia, deixando para trás as paixões da extinta melhor seleção do mundo, onde o sonho do hexa ficou para o Qatar e o planeta conheceu que nossa ainda maior estrela do futebol, Neymar, é também um grande malabarista, agora o Brasil já está mergulhado em um novo campeonato que envolve todos os 207.000.000 de brasileiros, mesmo que uma grande maioria esteja desencantada  com os políticos e teremos a frente, não a disputa pelo lugar de um campeão, um vice e um terceiro lugar, mas o jogo sairá como vencedores 01 presidente, 27 governadores, seus respectivos vices, 513 deputados federais, 54 senadores, vez que cada estado elegerá 02 senadores este ano e 1059 deputados estaduais, dentre os possíveis 25000 candidatos.

Procuraremos neste período de pré e de campanha, lançar alguns escritos sobre as eleições, começando por este breve escrito sobre o calendário eleitoral, regra importantíssima para os envolvidos, onde lembraremos as principais datas e fatos que a legislação prevê. Este ano, muito embora o período efetivo da campanha oficial fora reduzido, criou-se a fase de PRÉ CAMPANHA, ou seja, desde 05 de julho, os postulantes a cargos eletivos, já podem fazer suas reuniões, visitas, sempre divulgando seus nomes, mas ainda sem pedir votos. E a partir do dia 07 de julho existem vedações para com o servidor público e foram suspensas as inaugurações e contratações de shows artísticos pagos com recursos públicos.

Desde 17 de julho de julho, o eleitor poderá habilitar-se para votar em trânsito indicando o local pretendido. A partir de 20/07 até 05/08, os partidos estão realizando suas convenções para escolha de candidatos. Depois de 25/07, desde que realizado a convenção partidária, os candidatos e partidos poderão informar as doações recebidas. A partir de 06/08, as rádios e as tvs não poderão divulgar, mesmo que em entrevistas, imagens de realização de pesquisas eleitoral, assim como veicular propaganda política ou difundir opinião favorável ou contrária a candidato, partido, coligação, seus órgãos ou representantes, como dar tratamento privilegiado a candidato, partido ou coligação, veicular ou divulgar, qualquer programa com alusão ou crítica a candidato ou partido político, exceto programas jornalísticos ou debates políticos, divulgar nome de programa que se refira a candidato escolhido, ainda quando preexistente, inclusive se coincidente com o nome do candidato ou com a variação nominal por ele adotada.

Em 08/08 é o último dia para o eleitor que estiver fora do seu domicílio eleitoral requerer a segunda via do título em qualquer cartório eleitoral.

13/08 termina o prazo para os membros das mesas receptoras e pessoal de apoio recusarem a nomeação, observado o prazo de 5 (cinco) dias contados da nomeação.

Encerra em 15/08 o prazo para os partidos requererem as inscrições dos candidatos e para que os tribunais e conselhos de contas tornarem disponível à Justiça Eleitoral relação daqueles que tiveram suas contas rejeitadas por irregularidade insanável e por decisão irrecorrível do órgão competente. Também neste dia é o último para que os partidos providenciem a abertura de conta bancária destinada à movimentação de recursos públicos e privados para a campanha eleitoral.

16/08, marco inicial para que seja dado início a campanha eleitoral, comícios, reuniões públicas, distribuição de material de propaganda, comitês, caminhada, carreata, passeata, divulgação paga, na imprensa escrita e a reprodução, na internet, do jornal impresso.

23/08 termina o prazo para impugnar os pedidos de registro de candidatos.

31/08 começam as propagandas em rádio e na televisão.

07/09 encerra o período para os que partidos preencham as vagas remanescentes para as eleições proporcionais e 09/09, começa o envio de prestação de contas parcial, indo até 13/09.

17/09, data em que todos os pedidos de registro de candidatos, inclusive os impugnados e os respectivos recursos, devam estar julgados. Último dia para o pedido de substituição de candidatos para os cargos majoritários e proporcionais, exceto em caso de falecimento.

22/09, data a partir da qual nenhum candidato poderá ser detido ou preso, salvo em flagrante delito. 27/09 último dia para o eleitor requerer a segunda via do título eleitoral dentro do seu domicílio eleitoral e 02/10 nenhum eleitor poderá ser preso ou detido, salvo em flagrante delito, ou em virtude de sentença criminal condenatória por crime inafiançável, ou por desrespeito a salvo-conduto.

4 de outubro encerra a campanha eleitoral com a divulgação da propaganda gratuita no rádio e na televisão, de propaganda política mediante reuniões públicas ou promoção de comícios e utilização de aparelhagem de sonorização fixa. Último dia para a realização de debate no rádio e na televisão, admitida a extensão do debate cuja transmissão se inicie nesta data e se estenda até as 7 horas do dia 5 de outubro de 2018.

5 de outubro  Último dia para a divulgação paga, na imprensa escrita, de propaganda eleitoral e a reprodução, na internet, de jornal impresso e em 6/10 a propaganda eleitoral mediante alto-falantes ou amplificadores de som, entre as 8 e as 22 horas se encerra e até as 22 horas, para a distribuição de material gráfico e a promoção de caminhada, carreata, passeata ou carro de som que transite pela cidade divulgando jingles ou mensagens de candidatos.

07 de outubro é o dia do grande jogo da final e dia 08 a prorrogação, caso haja, até dia 28/10 quando se encerra o campeonato e o juiz apita o final desta extensa partida.

*Por Ailton Cezarino, advogado!

As tragédias da Nicarágua

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RIO – No muro velho, coberto de limo e furado de balas, a denúncia: “Os direitos humanos são três: ver, ouvir e calar”. Em outro muro, branco e limpo, a esperança: “Bolívar y Sandino, este es El Camino.”

Nas vésperas de fugir, Somoza fez um apelo final ao embaixador norte-americano: “Não podemos entregar o país a nossos inimigos. Precisamos vencer nem que para isso seja preciso destruir a metade da pátria.” O embaixador americano sorriu: “Qual? A sua ou a nossa?”

A menina linda, cabelos negros e olhos puxados, estudante e guerrilheira, sentada a meu lado no avião, conta a piada para mostrar como seu povo sabia bem quais eram seus principais inimigos. E por isso é que a unidade nacional tão poderosa se fez na hora da luta final. A história destes povos tão miseráveis e tão sofridos da América Central está sendo escrita com sangue, mas também com uma dura lucidez. Eles aprenderam em séculos de dominação e dependência que o caminho da liberdade é a decisão de lutar. Como Bolívar e Sandino ensinaram.

Desço no aeroporto, está lá em letras enormes: “Bem vindos à Nicarágua livre.” E um retrato do general Augusto Cesar Sandino, o herói da independência nas lutas contra os Estados Unidos no começo do século: chapéu, lenço no pescoço e o lema: “Pátria livre ou morrer.”

Não parece que este povo acaba de derrubar uma ditadura com uma guerra civil. A alfândega é apenas um rapaz olhando e carimbando o passaporte, outro abrindo e fechando as malas mecanicamente e me menos de um minuto para ver se há armas, e uma garota na caixa cobrando um dólar e meio de taxa de desembarque. Nenhum ar de desconfiança ou de receio.

Armados, apenas dois guerrilheiros, com suas fardas verdes e boinas vermelhas: um jovem de no máximo vinte anos e uma menina morena, muito morena e muito menina, dizendo amavelmente: “Bienvenido.” E só. Nada daquele clima de terror policial que se vê em tantos cantos do mundo.

Eles aprenderam, de um duro aprender, que só há uma segurança: a vontade nacional.

Não sei o que aconteceu com os mais velhos nesta incrível terra de jovens. Só se veem jovens. Chego ao Palácio da Revolução – que era o Palácio Nacional tomado pelo Comando Zero e seus companheiros em agosto – um garoto de farda verde e metralhadora na mão pergunta se estou armado e passa a mão em minha cintura.

– Por que esse cuidado todo?

– Os inimigos. Ainda não ganhamos tudo. Há inimigos ainda por toda a parte.

Volto para o Hotel Intercontinental, abro a janela do oitavo andar e de repente entendo porque tudo aconteceu. Outras vezes estive aqui, em 1958 e 1960. E percebo que esta capital da Nicarágua, tantos anos depois, neste outubro de 19798, é muito mais pobre e abandonada.

Claro que houve o terremoto de 1972, que destruiu o centro quase todo, mas o maior crime de Somoza foi exatamente ficar com o dinheiro da solidariedade internacional e depositar em dólares nos bancos dos Estados Unidos. Manágua é a cidade mais pobre de toda a América Central.

*Por Sebastião Nery

Da janela vejo o quadro da ditadura. Somoza dez daqui uma fazenda sem metáfora. Atrás do hotel, o bunker de onde ele governava. Em frente, o único edifício alto da cidade, o Banco da América. Lá no fundo a catedral. E as casas de barro cobertas de papelão espalhadas por todo canto.

Tudo exatamente como em uma grande fazenda. O povo muito pobre andando nas ruas e a rádio no quarto do hotel cantando a vitória sobre a ditadura:

“Rádio amor, pobre mas honrada como a Pátria.”

Wagner foge do Plano B de Lula

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As incertezas da disputa presidencial são generalizadas, mas no PT ganhou uma faceta específica: o partido definiu como estratégia bradar que Lula é o cara, com o enunciado de que o ex-presidente ”não é mais um ser humano, é uma ideia”.

Mas e daí? Tal estratégia tem prazo de validade curto. Estamos a 81 dias das eleições e todo mundo duvida, inclusive os próprios petistas, que a justiça vá deixar Lula ir até as urnas. É aí que entra Jaques Wagner.

Boa aposta

Wagner já disse que o PT poderia pensar em algum nome de fora do partido, e citou Ciro Gomes, bradou que o PT não tem Plano B, ”só tem o Plano L de Lula”, que o seu projeto é mesmo disputar o Senado pela Bahia, mas jornalistas que trabalham em Brasília dizem que nos bastidores o nome dele é sempre citado entre as apostas plausíveis.

Por que? Dos Estados que o PT governa ou governou, lembram eles, a experiência mais bem sucedida é a Bahia.

Também isso não passa pelo crivo de Wagner. Ele diz que o PT tem também boas experiências com Wellington Dias, no Piauí, e com Tião Viana, no Acre. Talvez a Bahia, por ser maior e mais próximo do sul, dê a visibilidade que os outros não têm, isso ele admite.

Mas o projeto do ”Galego”, como Lula o chama, é a candidatura ao Senado, embora alguns baianos às vezes pareçam contaminados pela turma do Planalto quando dizem que ”Lídice ainda tem chances”.

*Por Levi Vasconcelos, jornalista político, diretor de jornalismo do Bahia.ba e colunista de A Tarde.

Na Croácia de Tito

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RIO – Em julho de 1957, estava eu em Moscou, a imprensa internacional acordou com a manchete quente: “Tito e Bulganin encontram-se na fronteira da Rumânia”. Bulganin, um velhinho de barbicha branca e cara muito rosada, que poucos dias antes eu vira passeando só e calmamente nos jardins do Kremlin, era o então presidente da União Soviética. Aquele papo de fronteira significava o fim de dez anos de punhos cerrados entre URSS e a Iugoslávia, com os comunistas de meio mundo acusando Tito de traidor do socialismo.

No ano seguinte, para espanto dos americanos e desespero dos stalinistas, o presidente Bulganin e Kruschev, primeiro-ministro e secretário geral do PC soviético, desciam em Belgrado e faziam a mais sensacional autocrítica já vista em dirigentes da URSS: na briga com Tito, os errados fomos nós. E começou o degelo no leste. Gomulka saiu da cadeia, reassumiu o poder na Polônia e foi ver Tito. Lembro bem, apesar dos anos já passados, quando fui pegar meu cartão de jornalista estrangeiro convidado para o jantar de Tito a Gomulka, um correspondente americano me disse malicioso:

– Os meninos estão arrancando os dentes do velho leão, depois de morto.

– Que leão?

– Stalin.

A história rodou, a experiência socialista se fez universal, Bulganin e Kruschev perderam o poder e a vida, e tanto tempo depois, reencontro a Iugoslávia um país inteiramente novo, reconstruído da guerra, industrializado, em processo de desenvolvimento com índices raros em toda a Europa, e ainda sob o comando político e nacional, muito mais nacional do que político, do mesmo Tito que arrancou a autocrítica de Bulganin e Kruschev. Por que? Porque Tito, aos 81 anos, era muito mais do que o presidente do país, porque o seu grande herdeiro vivo.

Os heróis são filhos da morte. Nascem na sepultura. Mas a história às vezes faz alguns coabitarem com a glória e, em vida, serem sinônimos de sua pátria. Quando De Gaulle dizia – “Se quero saber o que a França pensa, pergunto a mim mesmo” – ele estava apenas traduzindo a sua consciência de herói vivo, Tito era o De Gaulle socialista da Iugoslávia. Um homem sinônimo de seu país e de seu povo.

– Nossa filosofia básica de governo é o respeito à liberdade dos homens e o desenvolvimento natural de nosso sistema socialista – dizia-me no almoço no clube de imprensa, o ministro Dragoyub Budimovski, um jornalista que, em 1941, deixou a redação e foi para as montanhas, de fuzil na mão, aos 18 anos, fazer guerrilha contra as tropas de Hitler que tinham invadido seu pais. Gordo, forte, vermelho, parece camponês eslavo. E não é outra coisa esse filho da Croácia, sorrindo largo, comendo muito e falando apaixonadamente da experiência nacional de seu povo:

– Quer dizer que aqui socialismo e liberdade se casaram.

– É a única maneira de dar bons filhos.

E riu largo, aberto, vermelho, como os camponeses da Croácia.

*Por Sebastião Nery

Lembrança de Waldir Pires

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Nestes tempos de mediocridade triunfante, carência de vocações públicas, foi uma festa o reencontro com velhos amigos como Waldir Pires,Virgildásio Sena, Roberto Santos, Joacy Goes, Hélio Duque, João Carlos Teixeira Gomes (o poeta Joca), outros, relembrando uma parte da história política brasileira.

Aos 91 anos, Waldir lúcido e ativo na defesa da democracia, ensinava: -“A política é a única forma de produzir mudanças na sociedade. O governo democrático não é o governo da vontade pessoal do governante. Não há falta de inteligência nos dias atuais. Há falta de caráter. A civilização não pode ser a corrupção e o caos, a ansiedade e a opressão. A dignidade humana, os direitos existenciais, os valores da liberdade, devem ser o balizamento na sociedade democrática. É o ser humano a medida e o fim da sociedade.”

Ao longo de uma vida de vitórias e derrotas, Waldir nunca abdicou de ser um homem público. Diferentemente de tantos, nunca usou o poder para servir-se, mas de ser um servidor na atividade pública. No legislativo, como deputado federal, foi um formulador de leis modernas. No executivo, em diferentes administrações, imprimiu seriedade e competência no enfrentamento dos desafios. Antes de abril de 1964, no deposto governo de João Goulart, era Consultor Geral da República, integrando a primeira lista dos cassados pelo novo regime. Exilado na França, tornou-se professor da Faculdade de Direito de Dijon e do Instituto de Altos Estudos da América Latina na Universidade de Paris, entre 1966 e 1970.

Em 1970, com a anistia, retornou ao Brasil, filiando-se ao MDB. Pela Bahia, em 1982, disputou o Senado e foi derrotado. Com a redemocratização e a eleição do seu velho amigo Tancredo Neves, foi Ministro da Previdência.

Em 1986, candidato ao governo da Bahia, teve histórica vitória. O deputado Hélio Duque lembra-se bem. Em janeiro de 1989, durante almoço no Palácio de Ondina, residência oficial do governador, o assunto era a eleição direta para a presidência da República. A maioria dos presentes defendia a candidatura do governador Waldir Pires, para a disputa presidencial pelo PMDB. Hélio Duque argumentou contra, apontando duas principais razões: primeiro, o candidato do partido deveria ser o presidente do partido Ulysses Guimarães; segundo, para ser candidato Waldir teria de renunciar ao governo da Bahia. Meses depois, em Brasília, na convenção nacional, Waldir disputaria com Ulysses a indicação e foi derrotado.

Em nome da unidade partidária, convenceram o governador a ser o vice de Ulysses, com a falsa argumentação de que em curto espaço de tempo, por falta de carisma eleitoral, Ulysses renunciaria e Waldir assumiria a disputa presidencial. Ao deixar o governo da Bahia, assumiu o vice-governador Nilo Coelho, que reformulou radicalmente a administração.

Elegeu-se em 1990 deputado federal pelo PDT, com a maior votação registrada na história política da Bahia.

Na semana passada Waldir nos deixou.

*Por Sebastião Nery

Bala perdida não acerta gente branca no Brasil

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A cultura brasileira tem algumas peculiaridades interessantes. No norte do país, é muito difundida a figura folclórica do Boto Rosa, que segundo a lenda, engravida moças solteiras em épocas festivas. O “Boto” exime da culpa o pai que abandonou o filho ainda no ventre da mãe, que será a única responsável pela criação do filho vindouro. Outra figura presente em nossa cultura se assemelha ao Boto, justamente por sua capacidade de fantasiar uma situação real: a “bala perdida”.  Assim como um “filho do Boto” parece não ter um pai, um morto por bala perdida, aparentemente, parece não ter um assassino. Afinal é a bala, tratada aqui como protagonista, que estaria “perdida”, quase como se não tivesse sido disparada por alguém. Os eufemismos de nosso folclore costumam ser cruéis.

Infelizmente, bala perdida é um termo cada vez mais utilizado pelo brasileiro. Apenas neste ano, mais de cem pessoas foram vítimas desses casos, apenas no Rio de Janeiro. No primeiro semestre de 2017, a média foi uma vítima de bala perdida a cada 7 horas na capital fluminense. A situação fica ainda mais dramática quando o alvo são crianças e adolescentes. Nos últimos 3 anos, pelo menos 30 pessoas com idade igual ou inferior a 14 anos deixaram a vida prematuramente, em casos tratados como de bala perdida. 9 apenas em 2018.  Muitas delas a caminho da escola.

Mas, para artefatos perdidos, essas balas têm pontos de encontro muito comuns. As estatísticas absurdas permanecem aumentando, sobretudo porque essas balas não estão matando gente rica e branca. As mortes são toleradas pela sociedade, porque acontecem, na maioria das vezes, nas favelas, ceifando a vida daqueles que já são as maiores vítimas da violência: os negros e pobres. O caso de Marcos Vinícius da Silva, de 14 anos, que morreu baleado quando ia a uma escola estadual, certamente seria encarado com outro peso, se a vítima em questão estivesse a caminho de uma escola particular da Barra ou da zona sul.

Os progenitores dos “filhos de boto” não deixam de existir (e de ter obrigações legais) com a lenda nortista. Da mesma forma, a figura que disparou a bala, convenientemente chamada de perdida, não deixa de ser o autor do crime.  São bandidos portadores de armas de guerra que, muitas vezes, se escondem atrás de fardas e agem em nome do Estado. O sentido da expressão, oculto por um termo genérico, é desumano: uma notícia de bala perdida dá uma impressão mais casuística que dolosa. Ninguém morre por bala perdida, morre assassinado por alguém que puxou um gatilho e deve se responsabilizar por isso.  E a vida de todas as pessoas merecem a mesma atenção e cuidado parte das autoridades, para que se interrompa o genocídio velado em solo brasileiro.

*Por Guilherme Coutinho

Lembrai-vos de 1964

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RIO – Queiroz Junior, jornalista e escritor, conta que, no primeiro semestre de 1937, Flores da Cunha, governador do Rio Grande do Sul, veio ao Rio visitar Getulio. Os dois de charuto na boca:

– Sabe, Flores, os tempos são outros, vou fazer as eleições e a dificuldade em que me encontro é a de escolher um homem verdadeiramente à altura do cargo, que possa continuar minha obra.

– Quem sabe o Aranha (Osvaldo Aranha).

– Tenho pensado nele, mas não serve. O Oswaldo comprometeu-se demasiadamente com os norte-americanos e considero essa política de submissão muito perigosa.

– Talvez o Zé Américo.

– José Américo é um grande romancista, mas um péssimo político.

– Quem sabe se, esquecendo ressentimentos pessoais, não teria chegado o momento de você indicar o Eduardo Gomes.

– Impossível. O Brigadeiro é honesto, íntegro, mas é um carola. Só vive metido com padres e bispos. Com ele no poder, a religião absorveria inteiramente o Estado.

– E o Góis Monteiro?

– O Góis bebe demais. Não pode ser o timoneiro do barco nacional. Poderíamos todos ir ao fundo.

– Então, só nos resta o Ademar.

– Deus nos livre, Flores!

– Bem, nesse caso você está num beco sem saída.

Getulio deu uma longa baforada no charuto:

– Flores, quem sabe se não é isso mesmo que eu quero?

E era. Em 10 de novembro de 37, Getulio deu o golpe.

 

JANGO E BRIZOLA

 

No fim de 1963, vim ao Rio (era deputado na Bahia, pelo MTR-PSB), para uma reunião da Frente de Mobilização Popular, comandada por Brizola. Lembro-me bem do Max da Costa Santos e Roland Corbisier (deputados federais do PSB e PTB da Guanabara), do José Gomes Talarico (deputado estadual do PTB da Guanabara e amigo intimo do presidente João Goulart), do Clodesmidt Riani, Oswaldo Pacheco e outros lideres do CGT (Comando Geral dos Trabalhadores), do José Serra e Marcelo Cerqueira (presidente e vice-presidente da UNE), do Paulo Ribeiro e Tarso de Castro (a turma do jornal “Panfleto”) e alguns dos “Grupos dos Onze”.

Pareciam todos judeus, comandados por Moisés, atravessando o Mar Vermelho e chegando à Terra Prometida. Ninguém tinha duvida nenhuma de que não haveria força humana capaz de nos tirar do poder. A única duvida ali era sobre quem seria o presidente depois do fim do mandato de Jango, em 65: o próprio Jango ou Brizola.

 

JK E LACERDA

 

De Juscelino (meu candidato) e Lacerda, já lançados pelo PSD e UDN, não tomavam conhecimento. Juscelino, por “estar superado”. Lacerda, porque “não podia assumir”. Mas Jango era inelegível (não havia reeleição) e Brizola também, por parentesco (porem “cunhado não é parente”). A Constituição seria modificada, “na lei ou na marra”.

Jango havia dito a meu saudoso amigo (e dele também) Alaim Melo, um dos lideres do PTB da Bahia : – “Não vou trair a memória do Velho Getulio. Ao Lacerda não passo o governo, em nenhuma hipótese”.

ASSIS BRASIL

Depois da reunião, eu disse a Brizola e ao Max (também baiano) :

– Os militares, lá na Bahia, estão conspirando o tempo todo. A Marinha, não sei. Mas até eu já fui convidado por amigos para reuniões

com gente do Exercito e da Aeronáutica.

Brizola pediu alguns detalhes,eu dei, não falou nada.O Max zombou:

– É a UDN militar, Nery. Essa gente não aguenta um tiro do dispositivo militar do general Assis Brasil (chefe da Casa Militar de Jango).

Quatro meses depois, estávamos todos, sem uma exceção, cassados, presos ou exilados. O “dispositivo militar” do Assis Brasil não dispositivou um tirinho sequer. Os “Grupos dos 11” eram “romanos”: “Grupos dos II”.

A saída de Pedro Parente

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Após cerca de dez dias marcados por inúmeras e intensas paralisações de caminhoneiros em toda continentalidade brasileira, cujo resultado implicou na redução de 36% no volume de exportações e 26% no percentual de importações, o movimento foi cessado depois de acordos formulados entre representantes dos motoristas e o Governo Federal, que prometeu, dentre tantas reivindicações pleiteadas, a redução no preço do litro do óleo diesel em R$ 0,46 centavos, cabendo a União subsidiar R$ 0,30 centavos deste desconto. O valor total das concessões custará R$ 13,5 bilhões de reais.

Na última sexta-feira, dia 01 de junho, o então Presidente da Petrobras, Pedro Parente, pediu demissão do seu cargo, após exatos dois anos de permanência. Parente foi um dos principais alvos do movimento grevista que parou o Brasil dias atrás. A postura em meio à política de preços dos combustíveis adotada pela empresa durante a gestão do ex-chefe foi bombardeada por inúmeros setores que ocuparam as ruas, bem como por diversas correntes políticas, tanto aliadas quanto adversárias do atual governo.

O desligamento de Parente repercutiu mundo afora e foi motivo de discussões e polêmicas no Brasil. Em que pese a existência de necessárias críticas formuladas em face de algumas medidas adotadas pelo ex-gestor, inegável é o avanço da Petrobras durante os dois anos gerenciados pelo técnico, cujo valor de mercado depreciou-se em R$ 40 bilhões de reais com a sua saída e as ações tiveram perdas de 15%.

A empresa símbolo da produção petrolífera nacional foi devassada nos últimos anos pelos governos anteriores, tendo a referida pessoa jurídica como legado os dizeres estampados nas páginas policiais, já que seus principais expoentes foram encarcerados em razão do cometimento de malfeitos com o dinheiro público. Os desdobramentos da Operação Lava Jato revelam aos brasileiros o que foi feito com uma das principais potências da nação.

A partir da condução proporcionada por Pedro Parente, a Petrobras, anteriormente com prejuízo de R$ 1,2 bilhão e dívida de R$ 450 bilhões, hoje comemora um lucro líquido de valorosos R$ 6,9 bilhões no primeiro trimestre, o melhor resultado em cinco anos. Já a dívida recuou à marca de R$ 340 bilhões. Quanto ao valor de mercado, houve um salto de 123 bilhões para a importância de R$ 388 bilhões há duas semanas e, atualmente, após as perdas provenientes da inatividade do então condutor da empresa, é de R$ 231 bilhões.

Por todo o exposto, equivoca-se quem comemora a partida de Pedro Parente da Petrobras. Ao que é possível perceber, aqueles que vangloriam esse fato são os mesmos que consomem do discurso escandaloso e demagógico, de respostas imediatas e de soluções mirabolantes. São os mesmos que se seduziram pela opção feita por governantes passados ao reter a elevação no preço dos combustíveis para conquistar o voto do eleitorado e garantir a vitória no último pleito presidencial, enganando a todos que acreditavam na pretensa bondade.

*Por Luiz Eduardo Romano, graduando em Direito pela Universidade Federal da Bahia – UFBA. Vice Presidente Institucional da Juventude Democratas da Bahia.

Fuleirizaram as cores da bandeira e o conceito de patriotismo

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O mercado alerta para o desânimo do brasileiro em usar camisetas nas cores da bandeira brasileira. A oficial, então, corre risco de encalhar pelo preço e por carregar o estigma da CBF que de nacionalismo não simboliza nada, tantos foram os escândalos de corrupção em que se meteu. O esquema de propinas da última Copa no Brasil foi muito mais vergonhoso que o 7 x1 pra Alemanha que mandou nossa seleção de volta para casa com o rabo entre as pernas. Doeu, mas a falta de entusiasmo de muitos brasileiros em se enfeitar para o mundial tem a ver mesmo, com os protestos que potencializaram o golpe de 2016. As cores da nossa bandeira vestiram as manifestações organizadas por movimentos com falso nacionalismo. A turba golpista calou para o governo com mais ministros corruptos por metro quadrado, para a perda de direitos dos trabalhadores, para o desmonte de políticas sociais e sobretudo, para a entrega de riquezas naturais do pais ao capital estrangeiro. Há um sentimento de medo de que quem usar as cores do nosso maior símbolo possa ser confundido com um torcedor do golpe. Houve uma ‘fuleirização’ da nossa bandeira e do conceito de patriotismo. A devoção e o amor a pátria, foram banalizadas ao extremo. Tanto, que na maior vitrine cultural do pais, o carnaval do Rio de Janeiro, a vice-campeã debochou com uma ala dedicada à seleção da Fiesp que lutou para perder direitos. Para assistir aos jogos, sorrir ou chorar, vou me vestir com as cores da bandeira brasileira, mas acrescentarei a frase: não apoiei o golpe. Eles patos, eu canarinho que canta pela soberania do voto e do país. A torcida do golpe é que deve se sentir desconfortável em usar o verde e amarelo. Eu não.

*Por Luciana Oliveira

Errei de Coreia

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Jamais esquecerei aquela terça-feira, 30 de dezembro de 1952. Tinha 20 anos e amanheci na primeira página de todos os jornais de Minas, execrado com foto e tudo. Havia dois anos apenas, ainda no seminário, de batina, piedoso, estudava filosofia e teologia, certo de que logo seria padre e um dia bispo, quiçá cardeal.

Em um dos jornais, a manchete era minha, exclusiva, letras enormes:

“Confirmam-se as acusações de “Tribuna de Minas” sobre as ligações do Sr. José Mendonça com os elementos comunistas”.

E no longo subtítulo minha sentença de morte:

– “Preso ontem um redator de “O Diário”, justamente o homem de confiança do presidente do Sindicato dos Jornalistas de Minas. Carregava cartazes encimados pelo retrato de Prestes. Vêm de longe as atividades subversivas do Sr. Sebastião Nery”.

A matéria começava assim, sempre na primeira página:

“Um fato policial vem confirmar as denúncias que “Tribuna de Minas” tem feito, em sucessivos editoriais, de que o órgão do pensamento católico no Estado, através da ação consciente ou não de seu redator-chefe, está servindo de instrumento nas mãos dos comunistas em Minas. Referimo-nos à prisão do universitário Sebastião Nery, redator de “O Diário” e protegido do Sr. José Mendonça naquele jornal.

Na tarde de ontem, a polícia varejou uma célula vermelha na rua Carijós, 774, onde se reuniam componentes das conferências pró-defesa dos direitos da juventude, organização esta que já tivemos oportunidade de denunciar. Durante sua repressão, os policiais detiveram diversos elementos ligados às classes estudantis e agitadores, entre os quais se encontrava o referido redator de “O Diário”.

Aquela cadeia foi minha primeira grande lição de jornalismo. Ela me ensinou o que é a imprensa muito mais do que os meses em que eu já vinha trabalhando no jornal. Nada do que os vários jornais publicaram sobre mim e meus colegas presos era inteiramente falso.

A Tribuna de Minas era um jornal de Ademar de Barros, dirigido por Alexandre Konder, catarinense de talento e coragem, texto brilhante, borbulhante, confessadamente fascista, primo do senador Jorge Konder Bornhausen.

Konder tinha horror ao presidente do Sindicato dos Jornalistas de Minas, José Mendonça, meu mestre e de gerações de jornalistas, redator-chefe de O Diário, jornal da Igreja Católica, onde em 1952 fiz meu batismo profissional, porque Fernando Henrique ainda não havia acabado com a era Vargas e o Sindicato exigia que Konder cumprisse as obrigações trabalhistas.

O Partido Comunista e a UJC (União da Juventude Comunista), a que pertencíamos, eram ilegais e drasticamente reprimidos pela polícia. Para atuar politicamente, lançávamos mão de atividades mais amplas ou disfarçadas.

Nas conferências de defesa da juventude, discutíamos o Brasil e o mundo. Nesse dia, instalávamos em Minas o Movimento Mundial da Paz. A guerra da Coréia dividia o mundo e estávamos indignados com a Coréia do Sul, capitalista e dependente dos Estados Unidos, que havia criminosamente invadido a Coréia do Norte, socialista e irmã da União Soviética.

Muitos anos depois, em Roma, numa entrevista coletiva, perguntei a Gorbatchev e ouvi, perplexo, que foi a Coréia do Norte que invadiu a do Sul, e não o contrário, como me disseram na época.

Fui preso merecidamente. Errei de Coréia.

*Por Sebastião Nery