A CPI da pandemia

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Luiz Holanda é advogado e professor

A decisão individual do ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinando que o presidente do Senado instaure a CPI da Covid, criou uma polêmica jurídica a respeito de sua observância jurídico-constitucional. A Constituição Federal estabelece os requisitos para que uma CPI possa funcionar: um terço das assinaturas dos parlamentares da Casa onde ela vai ser instalada, um fato determinado e um tempo limitado de funcionamento.

Quanto ao quórum de instalação, 1/3 dos senadores pediram anteriormente que a CPI fosse aberta, conforme determina o artigo 58, § 3º da CF/88. Quanto ao tempo de duração, o Senado terá 90 dias para investigar a atuação do governo federal no enfrentamento da pandemia. Com relação ao fato determinado a ser apurado, Barroso indicou ”as ações e omissões do Governo Federal no enfrentamento da pandemia da Covid-19 no Brasil e, em especial no agravamento da crise sanitária no Amazonas com a ausência de oxigênio para os pacientes internados”.

Como se sabe, uma CPI é um instrumento com poderes de investigação próprios das autoridades judiciais. Além disso, ela tem o poder de pedir ao Ministério Público o indiciamento de pessoas que tenham sido consideradas responsáveis pelos fatos investigados. No caso, a pessoa investigada é o presidente da República, representante do governo federal.

A CPI pode quebrar o sigilo bancário, fiscal e de dados dos investigados, bem como requisitar informações e documentos de órgãos públicos, pedir perícias, exames, inspeções, auditorias e outros. Para começar a funcionar, o requerimento será lido em plenário da Casa, ocasião em que os líderes indicarão seus integrantes e marcarão a primeira reunião para a escolha do presidente, do vice e do relator da CPI.

Enquanto isso, a decisão do ministro Barroso começa a ser contestada por alguns, sob o argumento de que não houve a intimação do presidente do Senado para prestar informações sobre o pedido constante no Mandado de Segurança solicitando a instalação da Comissão, nem tampouco a indicação precisa do fato determinado.

A jurisprudência é no sentido de que o artigo 58. § 3º da Constituição exige que, além do quórum de instalação, o fato determinado seja concreto e individualizado, não podendo atacar questões genéricas como corrupção, responsabilidade governamental, política, econômica, etc. Segundo o constitucionalista Paulo Branco, ”Ficam impedidas devassas generalizadas. Se fossem admissíveis investigações livres e indefinidas haveria o risco de se produzir um quadro de insegurança e de perigo para as liberdades fundamentais”.

Para alguns, ”as ações e omissões do governo federal no enfrentamento da crise e o seu agravamento no Amazonas não constituem fato determinado a ser debatido numa CPI”. Um grupo de senadores usou as redes sociais para apoiar a decisão de Barroso mandando instalar a CPI. Já outros, em represália à decisão, pretendem defender a instalação da CPI da Lava Toga ou o impeachment de alguns ministros do STF.

O governo ampliou o pedido para incluir a atuação de governadores e prefeitos na pandemia. Como a crise se tornou evidente e precisa de uma solução, o único poder que pode saná-la é o próprio judiciário, no caso, o plenário do STF, que vai examinar e ratificar ou não a decisão unilateral do ministro.

*Luiz Holanda é advogado e professor universitário.

A fé não precisa de templos

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Artigo escrito pelo jornalista Victor Pinto

Eu sou aquela pessoa que professa sua fé sem a necessidade de me encontrar em quatro paredes de uma construção ou templo para poder fazer minhas orações, pedir perdão por aquilo que acho errado que fiz ou falei, agradecer alguma graça alcançada ou pedir algo. Até gosto, mas não acho tão imprescindível.  Totalmente contrário de cultos escandalosos, principalmente dos neo pentecostais, a oração pode ser silenciosa, pois a intenção será a mesma e acho que Deus não é surdo, sabedor da sua onipresença e onisciência.

Se realmente a pessoa tem que depender do ritual específico entre quadro paredes, me perdoe, mas essa criatura tem pouca fé. A ida ao templo, muito além da característica religiosa, tem fortes atributos de convenção social e de arrecadação pecuniária. Alguns vendilhões dos templos, em período de pandemia, estão mais preocupados com os livros das receitas do que a crescente lista de fieis que partiram do mundo terreno.

Padre Zezinho canta que orar costuma fazer bem. Para quem acredita, independente da religião que venha professar, tenha certeza que faz bem sim. Mas seja onde estiver ou com quem estiver. O exercício da Igreja, em um aspecto do cristianismo, predominante no Brasil, se faz, como o próprio evangelho de Mateus menciona, quando dois ou mais estiverem presentes em nome de Cristo.

No carro, na cozinha, no quarto, em alguns minutos no trabalho. Ouvindo um podcast, um cd, uma transmissão na TV, no rádio ou nas redes sociais: a fé pode sim ser professada e com segurança sanitária dentro da sua redoma pessoal. Pode sim a atividade religiosa ser essencial, no meu ponto de vista, desde que seja para ser sede de uma transmissão ou receber um ou outro fiel de maneira individualizada.

Apesar da nossa construção moral, que permeia o universo político e jurídico, passar pela fonte religiosa, Igreja não é Estado e nem Estado deve ser Igreja. Pastor ou padre pregar uso de arma para ”defender” o exercício do culto é passar pano para os modus operandi do Estado Islâmico que não tolera o cristianismo e não deixa pedra sobre pedra. Mata em nome do Divino. O próprio Cristo, com toda sua influência, não fez isso, mas os que vieram depois deles, os homens, alguns, sim, fizeram.

Citando mais uma vez, como diria Padre Zezinho, ”se Jesus chegasse agora e tivesse um microfone para espalhar a sua ideia” com certeza ou ele curava por suas mãos ou clamaria ao Pai por vacina para garantir a saúde do povo. O direito de religião é inviolável e constitucionalmente é fundamental. Mas a saúde é mais fundamental ainda. Pois sem saúde não há fiel que venha participar da vida ativa do templo ou até mesmo pagar o dízimo em dia (pois tem alguns, com certeza, que só pensam nisso).

*Eu sou aquela pessoa que professa sua fé sem a necessidade de me encontrar em quatro paredes de uma construção ou templo para poder fazer minhas orações, pedir perdão por aquilo que acho errado que fiz ou falei, agradecer alguma graça alcançada ou pedir algo. Até gosto, mas não acho tão imprescindível.  Totalmente contrário de cultos escandalosos, principalmente dos neo pentecostais, a oração pode ser silenciosa, pois a intenção será a mesma e acho que Deus não é surdo, sabedor da sua onipresença e onisciência.

Se realmente a pessoa tem que depender do ritual específico entre quadro paredes, me perdoe, mas essa criatura tem pouca fé. A ida ao templo, muito além da característica religiosa, tem fortes atributos de convenção social e de arrecadação pecuniária. Alguns vendilhões dos templos, em período de pandemia, estão mais preocupados com os livros das receitas do que a crescente lista de fieis que partiram do mundo terreno.

Padre Zezinho canta que orar costuma fazer bem. Para quem acredita, independente da religião que venha professar, tenha certeza que faz bem sim. Mas seja onde estiver ou com quem estiver. O exercício da Igreja, em um aspecto do cristianismo, predominante no Brasil, se faz, como o próprio evangelho de Mateus menciona, quando dois ou mais estiverem presentes em nome de Cristo.

No carro, na cozinha, no quarto, em alguns minutos no trabalho. Ouvindo um podcast, um cd, uma transmissão na TV, no rádio ou nas redes sociais: a fé pode sim ser professada e com segurança sanitária dentro da sua redoma pessoal. Pode sim a atividade religiosa ser essencial, no meu ponto de vista, desde que seja para ser sede de uma transmissão ou receber um ou outro fiel de maneira individualizada.

 Apesar da nossa construção moral, que permeia o universo político e jurídico, passar pela fonte religiosa, Igreja não é Estado e nem Estado deve ser Igreja. Pastor ou padre pregar uso de arma para “defender” o exercício do culto é passar pano para os modus operandi do Estado Islâmico que não tolera o cristianismo e não deixa pedra sobre pedra. Mata em nome do Divino. O próprio Cristo, com toda sua influência, não fez isso, mas os que vieram depois deles, os homens, alguns, sim, fizeram.

Citando mais uma vez, como diria Padre Zezinho, ”se Jesus chegasse agora e tivesse um microfone para espalhar a sua ideia” com certeza ou ele curava por suas mãos ou clamaria ao Pai por vacina para garantir a saúde do povo. O direito de religião é inviolável e constitucionalmente é fundamental. Mas a saúde é mais fundamental ainda. Pois sem saúde não há fiel que venha participar da vida ativa do templo ou até mesmo pagar o dízimo em dia (pois tem alguns, com certeza, que só pensam nisso).

*Victor Pinto é jornalista formado pela Ufba, especialista em gestão de empresas em radiodifusão e estudante de Direito da Ucsal. Atua na cobertura política em sites e rádios de Salvador. Twitter: @victordojornalé jornalista formado pela Ufba, especialista em gestão de empresas em radiodifusão e estudante de Direito da Ucsal. Atua na cobertura política em sites e rádios de Salvador. Twitter: @victordojornal

A história se repetiu…

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Amigos, terminei recentemente a leitura da obra A bailarina da morte: a gripe espanhola no Brasil, das historiadoras Lilia Schwarcz e Heloisa Starling. Ao ler o livro, o mais triste foi constatar que repetimos a história. Repetimos a tragédia diante dos nossos olhos. As autoras dedicam um capítulo sobre a gripe espanhola em Salvador. Segundo elas, a doença chegou à capital baiana no dia 11 de setembro de 1918. Passageiros de um navio vindo de Liverpool (na Inglaterra) desembarcaram aparentemente sem problemas, mas dias depois dois deles morreriam da enfermidade.

Contam as historiadoras que, em menos de um mês, a cidade começou a ser dizimada pela gripe. Operários de fábricas pararam de trabalhar, 86% dos funcionários dos Correios foram contaminados, festas foram suspensas e as escolas fechadas. ”Faltavam carros funerários para remoção de cadáveres e, em bairros populares, como Massaranduba, Barbalho, Baixa de Quintas ou Lapinha, os moradores assistiram à passagem, pelas ruas, de corpos estendidos sobre uma tábua, amarrados com arames e cordas, a caminho do necrotério”, escreveram as autoras

Na época, Antônio Muniz era o governador da Bahia. Assim como o atual governador Rui Costa, Muniz foi eleito graças ao padrinho político, J.J. Seabra. Seabra, assim como Jaques Wagner, pôs um aliado para guardar o lugar e retornar ao poder na eleição seguinte. Ele conseguiu, e Wagner tentará no próximo ano. Mas, diferentemente de Muniz, Rui Costa jamais teve um comportamento negacionista em relação à pandemia. Pelo contrário, embora tenha cometido alguns erros, como no caso dos respiradores, o petista adotou uma postura firme na defesa da ciência e da medicina. Nunca se curvou diante da pressão daqueles que preferiram se aliar ao vírus. Já o ex-governador negou a doença até quando deu, e, ao entregar a mensagem do Executivo à Assembleia Legislativa da Bahia em 1919, teve a desfaçatez de dizer que o estado foi ”um dos lugares do mundo em que a epidemia de influenza foi mais benigna, menos mortífera e menos extensa”.

Assim como deve ocorrer com a Covid-19, a gripe espanhola teve três ondas no mundo. Em Salvador, a moléstia do século 20 registrou os primeiros casos na segunda onda, quando afetou todos os continentes. E, como a pandemia do coronavírus, a segunda onda da espanhola foi ”mais violenta e fatal”. Com 320 mil habitantes, Salvador viu 130 mil contraírem a doença, quase metade dos moradores. Do total, 386 morreram. Vitória da Conquista tem hoje uma população semelhante à da capital da Bahia daquele período. E, até o último domingo, 360 pessoas já tinham sido vítimas da Covid-19, sendo que 23 mil contaminadas. Uma das vítimas foi o prefeito Herzem Gusmão, que lamentavelmente decidiu ficar ao lado dos que temem em negar a gravidade da enfermidade.

Se não temos um governador negacionista desta vez, temos um presidente da República, que contribui mais para perdemos vidas do que para salvar. Os brasileiros cavaram com os próprios pés o abismo que estamos. Escolheu um presidente que vira as costas para a política. Se a política prega o consenso, ele opta pelo conflito. Se a política prega o diálogo, ele opta pela briga. O resultado é que caminhamos a passos largos para entrar para história como o país onde ocorreu a maior tragédia sanitária do início do século 21. Na parede da memória, difícil será dizer no futuro qual a lembrança que doeu mais.

*Por Rodrigo Daniel Silva / Jornalista

Igualdade de gênero nas empresas

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Taís Rocha é psicóloga e diretora de Operações do Grupo Soulan

Cerca de 100 anos – esse é o tempo que vai levar para que o salário das mulheres seja equiparado ao dos homens em cargos iguais dentro das empresas. A constatação é da Organização Internacional do Trabalho.

Já a quinta edição do relatório ”Mulheres, Empregos e o Direito 2018”, do Banco Mundial, indicava que, naquele ano, 43% da força de trabalho do Brasil era constituída por mulheres, que compõem 50% da população brasileira, porém, com um ponto negativo: a média salarial das mulheres ficava 25% abaixo da dos homens.

Quando falamos sobre igualdade de gênero nas empresas o que não faltam são dados comprovando que ainda temos um grande caminho a percorrer, independente dos avanços já conquistados, surgidos, principalmente, a partir de movimentos sociais globais em prol do empoderamento feminino.

E por falar em poder, uma pesquisa da consultoria McKinsey & Company mostra que empresas com mulheres em cargos de liderança têm chances 21% maiores de ter desempenho financeiro acima da média. Os cálculos da consultoria ainda vão além, pois comprovam que a maior participação feminina no mercado de trabalho e em cargos diretivos tem o potencial de injetar cerca de US$ 12 trilhões no PIB global até 2025. No Brasil, o incremento seria de cerca de US$ 410 bilhões.

Analisando todos esses dados, a questão que precisa ser equacionada é: o que falta para que as empresas reconheçam, de uma vez por todas, a importância da promoção da igualdade em seus quadros funcionais e para que comecem a agir em favor da mudança desse cenário?

Acredito que o primeiro e mais importante passo a ser dado é as empresas estarem dispostas e abertas a contratar pessoas diferentes, equipes plurais, que trazem mais inovação e criatividade aos ambientes corporativos. As companhias precisam de pessoas com pontos de vistas diferentes, com habilidades emocionais diversas, que se adaptem facilmente às variadas formas de trabalho que o mercado atual exige, que priorizem novas formas de fazer gestão e que tenham capacidade de liderança com um olhar voltado a soluções e à gestão de riscos.

Na sequência, vem outra questão: como é possível saber antecipadamente se os profissionais têm todos esses diferenciais? A resposta é: usando a tecnologia, que, além de otimizar os processos de seleção e promoção, também reduz o preconceito e os vieses inconscientes.

Nosso trabalho é apoiar as empresas que querem se beneficiar dos atributos proporcionados pela diversidade. Tanto que oferecemos uma plataforma de avaliação de talentos que contribui para aumentar a diversidade da força de trabalho e reduzir o viés inconsciente nos processos de tomada de decisão, seja no momento da seleção ou da promoção.

Acreditamos que, além de dar oportunidades para aqueles que fazem parte dos grupos de diversidade (mulheres, LGBTQIA+, negros, idosos, etc.) o mais importante é reter e qualificar esses profissionais para que ascendam profissionalmente dentro das empresas, de forma que eles possam apoiá-las no processo de crescimento em seus mercados de atuação.

Nesse processo pela valorização da diversidade nas empresas, a área de Recursos Humanos tem função primordial, já que é, literalmente, a porta de entrada dos profissionais nas empresas. Então, para o Dia da Mulher, meu desejo é que os líderes, juntamente com suas áreas de RH, assumam o compromisso de mudar essa realidade, contratando e promovendo mais mulheres, porque a vontade de mudar é o primeiro e mais importante passo nessa caminhada de transformação da sociedade e das empresas para que se tornem mais inclusivas e justas. E que os números dessa desigualdade fiquem apenas na história de nosso país, como uma lembrança que deve ser esquecida e jamais enaltecida.

* por Taís Rocha de Souza

Rui e Bruno se unem

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Dizem que dos maus momentos, pessoais ou coletivos, sempre se tira boas lições. E uma delas, na política, vem agora, no pior momento da pandemia. A sintonia plena dos governantes deixando de lado as diferenças do jogo político. Ou melhor, seguem pelo conceito que sublima a política, o interesse público acima de tudo.

Assim é que Rui Costa (PT), Bruno Reis (DEM) e mais outros tantos prefeitos opositores do governador, como Colbert Martins (MDB), de Feira de Santana, e Nilo Coelho (PSDB) de Guanambi, falam a mesmíssima linguagem e no mesmíssimo tom: o bicho (no caso a Covid) está literalmente pegando.

Efeito carnaval

Rui, que antes de decretar o lockdown reuniu os prefeitos, expôs a situação: o sistema de saúde está à beira do colapso. E todos assentiram, porque nos quatro cantos da Bahia o cenário é o mesmo.

O pior: o Carnaval sem folia, mas com jeito de feriadão, a partir de agora é que vai começar a ser sentido. É fácil presumir: vai piorar.

Veja você. Semana passada, Rui decretou o toque de recolher das 22h às 5h da manhã; depois ampliou, antecipando o fechamento do comércio para as 20h; e agora, menos de uma semana depois, vem com o lockdown.

A lamentar: a convergência política colocando o interesse público acima de tudo deveria ser a regra. Mas também é exceção.

Alfabetização na pandemia

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Psicopedagoga é Luciana Brites

Depois de um ano cansativo e totalmente atípico, a indefinição sobre o reinício das aulas presenciais e o medo do coronavírus podem desanimar pais e alunos. Há ainda muita dúvida sobre como será a aprendizagem, educação e alfabetização com esse misto de atividades presenciais e online. Nesse momento, devemos trabalhar junto com as crianças a resiliência, que é a capacidade do indivíduo em lidar com problemas e adaptar-se a mudanças.

Pais que estão com os filhos em idade de alfabetização estão preocupados. O processo de alfabetização vai coroar a estimulação do desenvolvimento da criança, que foi incentivada quando tinha 2 ou 3 anos através de cores, sons e letras de forma lúdica. Estudos científicos mostram que a partir dos 6 anos podemos começar o processo de alfabetização sistemática e este vai até os sete anos e meio. Esse período é importante, porque nessa fase a criança está mais apta para habilidades de leitura e escrita.

Já aos 7 anos, começa um trabalho nas sílabas mais complexas e nas dificuldades ortográficas. Lembrando que crianças na Inglaterra, aos 7 anos leem 40 palavras por minuto. Logo, o processo de alfabetização pode ser sistematizado e mais estimulado nessa idade.

A alfabetização é o processo de decodificação da letra e do som. Nós escrevemos utilizando letras que representam um som, por isso que se fala que a nossa escrita é alfabética. Em especial por conta da pandemia, é ainda mais importante os pais incluírem na rotina atividades que façam essa correlação, mostrando as letras e principalmente o som daquela letra, trabalhando de forma lúdica durante 30 minutos todos os dias.

Um dos erros mais comuns no processo de alfabetização é achar que devemos ensinar a letra primeiro para que as crianças aprendam a ler e escrever. A letra é importante, mas antes da letra, um dos passos fundamentais para o processo de estimulação para as habilidades de leitura e escrita é a estimulação da consciência fonológica. A consciência fonológica é a percepção da sonoridade das palavras.

Ela deve ser incentivada de forma lúdica entre 3 a 5 anos. Podemos estimular usando rimas e músicas com rimas. Com isso, estamos brincando com o som das palavras e, assim, as crianças percebem que há palavras com sons parecidos. Associar palavras com o mesmo som, como, por exemplo, panela e canela, é uma habilidade essencial na hora da alfabetização.

Outros erros que muitas vezes são cometidos durante a alfabetização são a falta de rotina e a sistematicidade. Na escola tem que ter um planejamento e uma programação. Logo, em casa também. A criança tem que estar ciente do que está acontecendo e que aquele momento é de estudar. É preciso ter um planejamento claro das atividades e do objetivo. Não devemos deixar a criança com muitas atividades ou sem.

Nesse período de pandemia, tudo está sendo um aprendizado para educadores, pais e alunos. Devemos ter empatia e tentar, mais do que nunca, estimular nossos filhos em casa. Converse com o professor e veja o que pode ser feito. Fale com ele sobre possíveis dificuldades do seu filho. A união entre pais e escola vai ajudar muito no desenvolvimento do seu filho.

O livro e o universo

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Livro queimando é como estrela apagando-se. Livraria fechando, então, é galáxia implodindo. Salvador perdeu algumas. O Brasil várias. Nem mesmo o modelo “megastore” suportou nossa louca economia. Erros de gestão, fenômeno internet, leitores arredios. Uma pena. O livro é filho do Iluminismo. Documento vivo da repaginação pela qual o mundo passou. Em cinco séculos de existência seduziu cabeças, encantou almas. O modernismo e suas revoluções estéticas e sociais devem tudo a ele, que, agora, tem futuro incerto. O livro digital pode pôr fim à magia de acariciar capas, folhear páginas, sentir sua textura, o cheiro. O cosmólogo Carl Sagan diz que viemos da poeira das estrelas. Homens e livros ocupam o mesmo lugar no universo.

Nem tudo, porém, são nebulosas. É certo que os conteúdos migrem para os “Faróis de Alexandria digitais’, como “Google” e “Amazon”, e sejam alcançados apenas pelos tablets – perda para nossa geração da escrita -, mas o mercado admite que o livro e a livraria, como conhecemos, sobreviva mais alguns anos. Serão menores, aconchegantes pontos de encontros e debates, com atendimento especializado. Tudo que leitor deseja. Procurei, recentemente, o livro “Autobiografia”, de Woody Allen, e a atendente desconhecia o autor. Pediu-me que soletrasse o nome, mas, de tão estupefato, apenas balbuciei, ansioso para esconder-me atrás da máscara do Groucho Marx – que Allen tanto tripudia. Amo o ambiente das livrarias. Silêncio, luz indireta, estantes. Percorrê-las é um prazer.

A vida sem livros, livrarias e sebos não tem sentido. O universo está dentro deles. Pandora do bem. É incompreensível quem ainda os demonize, julgando-os desnecessários, perigosos. Gente má, sem leitura. A nova versão do filme “Fahrenheit 451” está passando na TV paga. E, assim como a primeira, de 1966, é difícil digerir. Os sentidos negam-se a acompanhá-los. Do livro de Ray Bradbury pouco lembro. Embrulhou-me. Queimar livros é hábito de pessoas com parafusos a menos. Setores conservadores, encarniçados em ideologias autoritárias e fanáticas de viés religioso, adoram odiar livros. As cenas de nazistas os queimando são revoltantes. Pior é a repetição do ato por hordas modernas. Ardem nas retinas. Regozijam-se como se queimassem pessoas.

Há lugares, como o Brasil, em que as autoridades propõem a adoção de impostos na venda de livros e liberem os impostos à importação de armas. Pudera, o risco é grande. Os jornais estão apinhados de casos envolvendo pessoas vítimas de livros perdidos na cabeça ou no coração. Tragicômico. E ameaçador. Quem foi atingido por um livro, pede mudança. Progressista. Por bala, não pede nada. O escritor russo Lev Tolstói, autor de “Guerra e Paz” – presente em qualquer lista dos 10 melhores livros da história – notou que as religiões – mais de 10 mil – têm rituais e modos diferentes de comportamento, mas pregam a mesma e única coisa: amor. É um mistério o ódio que destilam contra os livros e as pessoas que os admiram. Santa ignorância!

O livro não faz mal a ninguém. Ao contrário. Educa. Instrui. Conscientiza. Libera. Expande. Nos dá uma razão. Durante a pandemia, serviu de companheiro. Deu paz. Nada é tão reconfortante como um bom livro para ler, um bom livro para ver. Leva-nos a outros mundos, galáxias. A personagens que nos habitam. Se a vida é pouca, não nos basta, o livro vai nos dar outras vidas. Outros desejos. Outras possibilidades. Outros destinos. Aquele que optamos por escrever. Vai nos dar independência. Tudo é uma cadeia interminável de desejos, de possibilidades, de destinos. Se viver é bom. E ler também. Viver para ler ou ler para viver são muito melhores. Gutemberg, inventor da prensa, jamais imaginou que o livro pudesse chegar aonde chegou. Ser o próprio Universo.

*Cláudio Pimentel é jornalista.

Mascaras que caem

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Enquanto no auge da pandemia do Coronavírus (Covid-19) milhares de brasileiros reforçam a proteção colocando máscaras, algumas das principais lideranças políticas e gestores públicos fazem o caminho inverso e deixam cair suas máscaras, mostrando a real feição e o que são na realidade do momento atual. Sem mais subterfúgios ou tentativas de mascarar uma situação que pregam, mas que executam de forma totalmente contrária, revelam seus propósitos e a realidade política-ideológica que movem suas ações. ”Façam o que digo (e mando) mas não façam o que faço!”.

Personalidades públicas, como o governador de São Paulo, João Dória, os ex-ministros Sérgio Moro (Justiça) e Henrique Mandetta (Saúde), e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, expõem, à cada dia, suas reais feições políticas-ideológicas, não mais se escondendo atrás das máscaras da pandemia, que cobrem apenas seus rostos, mas não o caráter de cada um. Atrás deles, e seguindo a mesma trajetória, seguem alguns governadores, prefeitos e personalidades do meio artístico, e até mesmo renomados jornalistas em seus veículos de comunicação tradicionais.

O governador João Dória, que desde o início da Pandemia deixou claro o seu propósito de minar e torpedear o governo do presidente Jair Bolsonaro, para tentar ocupar o seu lugar em 2022, abriu guerra aberta e declarou o estado de São Paulo como um Brasil à parte. Impôs o maior lockdown no estado e depois de trancar tudo, viajou para Miami (EUA) para curtir as férias de final de ano. O seu companheiro de luta nessa empreitada, o prefeito da capital, Bruno Covas, tão logo foi reeleito, aumentou o seu salário em 43%, atingindo o teto de R$ 35 mil.

Na sua guerra contra o presidente Jair Bolsonaro, João Dória ignorou a Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e determinou a compra de 46 milhões de doses da vacina chinesa Coronavac, para imunizar os paulistas. Alguns governadores e prefeitos seguiram a mesma toada e reservaram os primeiros lugares na fila. Agora veem com preocupação que nem mesmo a China, país matriz da pandemia, aprovou a Coronavac, chamada por Dória de a “Vacina do Brasil”. Preferiu a Sinopharm, que parece ter comprovada eficácia maior que a sua congênere.

Já o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM), tão logo se configurou que o ”baipasse” na Constituição não seria possível, com a sua reeleição, afirmou que o objetivo agora é ter um sucessor que seja contra o presidente Jair Bolsonaro. Não importa como e de onde ele venha, nem que seja apoiado e indicado por partidos como o PT e o PSOL. São as mesmas características que têm revestidos, cada vez mais, as aparições públicas dos ex-ministros Sérgio Moro e Henrique Mandetta, que após deixaram o cargo, se tornaram desafetos do presidente da República.

No despir-se das máscaras, celebridades ou que recentemente vieram a ser, usam cada vez mais o ditado do fazer o que digo e não o que faço. Foi o caso da médica paulista, Thelma de Assis, protagonista da campanha milionária de R$ 180 mil do governo de São Paulo, para o “Fique em Casa”, que depois da pregação, resolveu curtir com as amigas as festas de final do ano em uma ilha alugada. Sem máscaras e sem pudor.

Até mesmo o Jornalismo, que por suas características basilares deveria ter o máximo de informação para se ter o mínimo de isenção, enveredou pelo ativismo e militância política partidária, quando distorce ou sonega informações. Esse mesmo Jornalismo é o que se indigna com as falas do presidente Jair Bolsonaro, mas faz ”cara de paisagem” com a condenação à prisão de uma jornalista chinesa, porque denunciou a existência da pandemia na província de Wuhan, onde tudo começou. Ou quando insiste em se referir ao Jornalista (formado e com registro), Euvaldo Eustáquio, preso e levado ao hospital algemado em uma maca, como sendo apenas um blogueiro, numa forma de depreciá-lo. Ou ainda se calar, quando um editorialista da Folha de São Paulo externa o desejo de ver o presidente da República morto. Máscaras que caem e desnudam feições.

Na prevalência dos interesses políticos-ideológicos, antes escondidos sob máscaras da pandemia, os armários vão se abrindo e deles saindo personagens dos mais diversos matizes O que antes estava encoberto e que só se antevia ou se intuía, com as máscaras caindo, se mostra como é.

”Os hipócritas são aqueles que aplicam aos outros os padrões que se recusam a aceitar para si mesmos”. Noam Chomsky – (7 de dezembro de 1928) é um linguista, filósofo, acadêmico e ativista político norte-americano, conhecido como o “o pai da linguística moderna”.

* Por Adilson Fonseca

Assembleia é a pauta da vez

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Dezembro e janeiro prometem muita movimentação na Assembleia, mesmo que de forma virtual. Tecnicamente, há série de decretos a serem votados e também a LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) para 2021. E politicamente há eleição da mesa diretora, até 2 de janeiro.

Eis a questão: em 2018, pelo acordo firmado, Nelson Leal, do PP de João Leão, ficaria e depois passaria o bastão para Adolfo Menezes, do PSD de Otto Alencar. Agora, Nelson se queixa intramuros que herdou um déficit de R$ 170 milhões do hoje senador Ângelo Coronel, também do PSD, e este ano veio a pandemia. Ou seja, só cumpriu tabela.

Nessa, o melhor dos mundos para ele seria o TSE aprovar a tese da reeleição para a Câmara e Senado. Não deu. Agora, ele teria que aprovar a toque de caixa uma emenda constitucional reabilitando a reeleição na Assembleia, o que depende de pelo menos 38 votos dos 63 deputados. Dizem na Alba que ele até tem isso, mas só com aval de Rui Costa.

Sem briga

Embora o PP de Leão queira permanecer no comando da Alba, Rui Costa tem dito que é contra, tanto pelo princípio da reeleição quanto para cumprimento do acordo feito em 2018.

De qualquer forma, Rui Costa estará no olho do centro decisório, até porque 2022 está chegando. ACM Neto é um adversário competitivo e adoraria ver um racha na base governista.

Os aliados de Otto e Leão sinalizam que tudo será resolvido no diálogo. Ninguém quer briga neste momento. Só Neto ganharia.

*Por Levi Vasconcelos, jornalista político, diretor de jornalismo do Bahia.ba e colunista de A Tarde.

Novo normal é o escambau

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Jolivaldo Freitas é escritor e jornalista

Ando cheio de medo e fico percebendo quão frouxo eu sou. Quando vejo multidões pelo mundo quase todo – neste planeta que uns acreditam piamente que é plano e reto, ignorando as curvas e esquinas – não tem dado a menor ousadia para o Covid-19 e ele que vá pipocar no inferno, fico pasmo. Minha pergunta é uma: será que sou a única pessoa no mundo que está com medo de ir para as festas de paredão, daquelas que bombam nas periferias da Bahia, da Espanha, da França e tantas plagas cá e por lá? Tenho medo de ir a boates, de restaurantes cheios, de supermercados com filas imensas em que ninguém respeita o distanciamento e tem até quem chegue tão junto que a gente sente o bafo no cangote, o que a pessoa comeu no almoço e até a marca do desodorante.

Fico cheio de receio de ir à praia – onde me garantem – tem bastante brisa, é local aberto e com salitres – porque hoje tem mais gente do que peixinhos no mar e cada pedaço de areia é disputado por multidões jogando futebol, peteca, futevôlei ou correndo atrás das crianças e dos cachorros e bebendo sua cervejinha com quitutes trazidos de casa, e ninguém come de máscaras, mesmo que elas sejam transparentes como essas que estão sendo usadas pelos políticos em campanha, para mostrar o sorriso Kolynos, ou seria Colgate…

Vejo os metrôs cheios, os ônibus lotados e os pontos com gente aboletada, boa parte sem máscaras. Os ferrys boats nem é bom citar. Não sei se a senhora viu, mas uma mulher mal educada, sem máscara, estava num ônibus numa cidade do civilizado Canadá e quando um rapaz foi reclamar ela cuspiu em sua direção. O rapaz a empurrou para fora do ônibus. Foi mal. Mas, pode acreditar que neste novo normal de agora para o futuro essas e outras serão cenas rotineiras. Uns querendo cobrar segurança dos outros e – como ocorre neste mundo que uns dizem que é plano -, ignorando as quebradas, haverá uma divisão de ideário e atitudes, como ocorre na seara política.

Fico arrepiado quando vejo a multidão aglomerada nas áreas de barzinhos, como no Rio Vermelho, bairro boêmio da velha Salvador, Cidade da Bahia, paralelo 13, ou na velha Mouraria ou sob os coqueiros de Itapuã – que já não tem tantos coqueiros assim. Vou prestar mais atenção. E, se verificar que depois das festas de fim de ano e logo após as passagens dos turistas que virão contaminados de tudo que é lugar da Terra – que uns dizem ser plana, ignorando as reentrâncias, cânions e vielas – metade dos brasileiros não se foram dessa para uma melhor, saio e irei com muita sede ao pote. Eu sei! Eu sei que aí é que mora o perigo. Mas, se somente eu não estou enfrentando o perigo?

*Jolivaldo Freitas é escritor e jornalista

O pré-candidato(a) e a candidatura material: ser ou não ser

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Neomar Filho, Advogado eleitoralista

Pensar em Hamlet, sobre ser ou não ser pré-candidato(a), me parece útil e adequado. No âmbito jurídico-eleitoral é possível conceber inúmeras consequências de tal ato declaratório em período anterior à campanha propriamente dita. Para além de entender as vantagens de uma pré-candidatura, que são muito claras, é preciso visualizar, no sistema normativo atual, o outro lado da moeda. Ou seja, as suas implicações. O debate é interessante.

De sensação de liberdade à conduta vedada e abuso de poder, a pré-campanha declarada pode se revelar um misto de amor e ódio. Alegrias e tristezas. A verdade é que não há apenas o bônus em se declarar pré-candidato(a), e é preciso enfrentar esse diálogo. Ter estratégia para decidir o melhor momento de manifestar uma pré-candidatura é fundamental.

A minirreforma, sem dúvidas, resultou em importante colaboração para o processo democrático de escolha dos representantes no Brasil. Especialmente ao inserir o artigo 36-A na Lei das Eleições (Lei nº 9.504/97), que possibilitou um novo formato de se fazer política, beneficiando, em última análise, a formação de opinião e escolha. Daí que surgiu a possibilidade de se posicionar em redes sociais, estando autorizado a conceder entrevistas e a participar de reuniões fechadas, tudo isso com menção à sua condição de pré-candidato. A proibição, neste dispositivo, ficou limitada ao pedido explícito de voto.

Contudo, recentes decisões de Tribunais desnudam, aos poucos, a desnecessidade, durante os meses que antecedem o período eleitoral, do pedido de registro para a caracterização de abusos quando há declarada pré-candidatura. Neste sentido, não há um único contexto possível na pré-campanha. Não se pode encarar a ausência de solicitação explícita de voto como algo libertador ou um salvo-conduto. Isso porque, as práticas abusivas transbordam o período de registro de candidatos, e precisam ser estancadas em velocidade compatível – sob pena de seus efeitos impactarem profundamente no resultado das urnas (mesmo sem oficialmente iniciada a campanha).

Por vezes, neste cenário, a convenção partidária serve apenas para homologar aquilo que já fora decido há muito tempo. E o pedido de registro, nessas situações, se mostra ato meramente formal, para validar uma escolha divulgada meses antes. Assim, a definição material de candidato deve ser levada à diante para os prós e os contras, sobretudo em razão da necessidade de manutenção do equilíbrio do pleito eleitoral, e restabelecimento da paridade de armas antes mesmo das convenções.

Em determinadas situações, aguardar o pedido de registro é permitir, num alto nível de ingenuidade, a escolha viciada, ilegítima, de alguém que durante meses e meses (em pré-campanha) vinculou a sua imagem a práticas ilegais – sob o manto da proteção de inexistência formal de candidatura.

*Por Neomar Filho, advogado eleitoralista

Da imparcialidade à inelegibilidade

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Advogado eleitoralista, Neomar Filho

À luz do que estabelece a Lei Maior de nosso país, é garantido, a qualquer indivíduo, ser processado e sentenciado por um juiz imparcial. No Estado Democrático de Direito, há o necessário distanciamento entre as autoridades investidas na atividade judicante, e o cidadão comum. Trata-se de garantia constitucional irretocável. Entretanto, a conversão de conceitos, de imparcial à inelegível, em desfavor do magistrado, torna perigoso o casuísmo a que pretendem forçar o Direito Eleitoral (mais uma vez).

Há muito se diz que o juiz se manifesta nos autos, e nele constitui a sua morada. Ou assim deveria ser, em virtude dos comezinhos princípios que os envolve. E por uma razão não somente normativa, disciplinar. Mas por um significado social relevante: a confiança no próprio órgão jurisdicional. Nesse sentido, o Conselho Nacional de Justiça tem desempenhado papel relevante ao buscar (re)adequar eventuais excessos, julgando e repreendendo os seus pares, impondo os limites legais quando necessário. O atuar verbal do juiz, fora do processo, está sujeito a este crivo.

Mas não se pode confundir, principalmente por terem uma conceituação complexa no âmbito do contexto de normas eleitorais, inelegibilidade com quarentena, e muito menos com imparcialidade. Na Lei Complementar nº 64/90 é difícil acomodar este debate. E, no rol de termos usualmente difíceis, nos mais variados sentidos, ainda há de se ter lúcida a desincompatibilização. É preciso colocar os ”pingos nos is”.

Como dito, é dever da constituição a garantia ao juiz imparcial, distante, portanto, das partes, o que naturalmente impõe a este indivíduo uma discrição protocolar. Lado outro, exigir o total negacionismo de ator político que possui o magistrado, na tentativa de lhe impor prazos desarrazoados de inelegibilidade, em nada parece contribuir para o avanço da democracia brasileira. Obviamente continua-se desejando, por amor às regras básicas de direito, juízes imparciais e que prezem pela justa prestação jurisdicional. Uma coisa não exclui a outra.

Numa visão doutrinária sobre inelegibilidade, nota-se que a sua existência ou perfaz a prática de um determinado ato, e, portanto, é aplicada na forma consequencial (a exemplo da condenação transitada em julgado pela prática de um crime), ou pertence ao indivíduo por opção da própria Constituição: como é o caso do militar em serviço obrigatório. A impossibilidade de se pleitear uma determinada candidatura permanece até que a condição pessoal seja modificada, ou desapareça, ou após determinado prazo com o cumprimento da pena.

O militar, para fins de ilustração, fora do serviço obrigatório, pode ser candidato. Nem sequer o afastamento prévio lhe é exigido (desincompatibilização), como acontece em regra com os demais servidores públicos, nestes enquadrados os magistrados, membros do Ministério Público e autoridades dos Tribunais de Contas. Daí porque injustificado exigir um novo lapso temporal.

Ressalte-se, por oportuno, ser imprescindível, e positivo, o CNJ para o próprio funcionamento do Poder Judiciário, que faz as vezes de moderador para o resgate da imparcialidade quando apropriado. Por outro lado, seria preciso diversificar e muito a genética da inelegibilidade, aliada a alguma outra fonte do Direito Eleitoral, para se admitir, e ser no mínimo aceitável, a ideia de inelegibilidade per si por oito anos a ser aplicada aos magistrados e membros do MP, na modalidade ”quarentena” e travestido de ”lockdown” social.

Escrito por Neomar Filho

Direito Eleitoral

Advogado eleitoralista da NF Assessoria Jurídica, Membro da Comissão de Direito Eleitoral da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Bahia, Professor de Direito Eleitoral de cursos de graduação e pós-graduação. Foi pesquisador bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia, Procurador Municipal e Assessor Parlamentar na Câmara dos Deputados. Atua nas áreas eleitoral, partidário, público-municipal e perante tribunais de contas.

Ensino remoto para não ter aulas

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Francisca Pereira

Todas as informações acerca da pandemia da Covid-19 no Brasil, nos levam a ser contra a flexibilização da quarentena que está sendo feita sem observar os critérios determinados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A OMS orienta o relaxamento do isolamento social somente quando a taxa de retransmissão do novo coronavírus estiver abaixo de 1, para mostrar que está sob controle.

Não é o caso do Brasil, nem de São Paulo. Segundo o projeto Covid-19 Analytcs, o estado de São Paulo estava com uma taxa de retransmissão de 1,19 em 30 de junho. Com a flexibilização feita pelo governador João Doria essa taxa pode ter variado.

Por isso, é importante defender o retorno à quarentena com os governos federal e estadual tomando as medidas necessárias para a preservação dos empregos e das pequenas e médias empresas que estão fechando. Mais de 500 mil já fecharam as portas.

Para piorar, o desgoverno Bolsonaro/Guedes defende o fim do auxílio emergencial de R$ 600, aprovado pelo Congresso. Com o desemprego e a informalidade nas alturas, o não pagamento do auxílio emergencial pode afetar amargamente milhares de famílias, que já estão no limite da sobrevivência.

Nesse contexto em que morrem mais de mil pessoas por dia em média no país, sem vacina, com o Sistema Único de Saúde (SUS) colapsado, a falta de testagem em massa e a forte possibilidade das crianças se tornarem transmissores do vírus é temerário o retorno às aulas presenciais.

Principalmente porque a rede de ensino pública estadual e municipais não reúnem as condições determinadas pela OMS e pelos cientistas para impedir a contaminação dessas crianças e jovens nas escolas.Controlar a pandemia é essencial.

É humanamente impossível impedir as crianças menores ao contato físico e mantê-las de máscara o tempo todo. Mesmo as crianças um pouco maiores sentem dificuldade em ficar distanciadas dos amiguinhos.

Mas o mais importante é saber que as escolas não têm a mínima estrutura para as adequações necessárias para conter a disseminação do coronavírus. As entradas teriam que ser adaptadas para higienizar quem entra na escola, os banheiros deveriam funcionar plenamente e com sabonete e papel higiênico. Os bebedouros higienizados, álcool gel espalhado por todos os ambientes e as salas de aula bem arejadas com ventilação adequada e espaço para o distanciamento necessário.

Como as escolas públicas de São Paulo deixam muito a desejar sobre todas essas questões, os riscos de contaminação para as professoras, professores, demais profissionais, estudantes e seus familiares são extremamente grandes e ninguém quer ser responsável pelo aumento do número de doentes e mortes. O bom senso determina manter as aulas presenciais suspensas até haver um controle efetivo da pandemia ou uma vacina eficaz.

No caso específico dos professores da rede de ensino oficial do estado de São Paulo, o governo tem a obrigação de rever os contratos temporários e pagar os seus salários integralmente. Esses contratos são feitos de forma precária. Sem os mesmos direitos dos efetivos e com salários menores, esses profissionais estão com os contrtos suspensos, sem receber anda do estado. A situação dos chamados “eventuais”, também requer atenção. São eles que substituem as professoras e os professores que se afastam por problemas de saúde ou que precisam se ausentar do trabalho em determinado dia. Esses profissionais não podem continuar sem receber pagamento do estado.

O governo estadual precisa realizar concursos públicos para prover a demanda das escolas públicas, mas enquanto isso não acontece deve honrar o compromisso de manter o pagamento dos contratados temporariamente e dos “eventuais”, além de estender todos os direitos trabalhistas dos efetivos para eles.

Dito isso, é fundamental nos debruçarmos sobre o ensino remoto de apoio pedagógico para suprir a demanda escolar sem prejuízo ao ano letivo. Como o ensino remoto aplicado pela Secretaria Estadual de Educação de São Paulo foi feito de maneira atropelada, sem diálogo e sem nenhum preparo técnico para as partes interessadas, é necessário fazer adequações que contemplem a todas e todos, sem pressão e sem sobrecarga de trabalho, ouvindo todas as partes para não haver nenhum estudante sem aula.

Essencial levarmos em conta as condições determinadas pelo Ministério Público do Trabalho (MPT). Primeiro, é necessários estabelecer o diálogo com os órgãos representativos da categoria, fornecer equipamentos e suporte técnico aos profissionais e estruturar as escolas. e isso demanda muito tempo.

Qualquer atividade escolar, seja presencial ou digital deve levar em conta o princípio básico da liberdade de cátedra e da liberdade de expressão tanto de quem ministra a aula como dos estudantes.

Respeitar a carga horária de trabalho e o tempo necessário de descanso entre uma atividade e outra, seja para a realização de vídeos, sejam aulas remotas ao vivo.

Como determina o MPT: “A liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber, o pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, bem como o princípio da valorização dos profissionais da educação escolar, ambos previstos no artigo 206 da Constituição Federal de 1988”.

Também é importante levar em conta a profunda desigualdade socioeconômica e educacional para realizar um trabalho que contemple a todos e não privilegie ninguém. Saber lidar com as discrepâncias entre os sexos sobre o trabalho doméstico, no qual as mulheres trabalham muito mais horas do que os homens, acarretando numa sobrecarga de trabalho bem maior também faz parte do contexto.

As “medidas necessárias pelas instituições de ensino para propiciar a compatibilidade da vida profissional e familiar de docentes em trabalho por meio de plataformas virtuais, trabalho remoto e/ou em home office; regular a prestação de serviços por meio de plataformas virtuais, trabalho remoto e/ou em home office, no período de medidas de contenção da pandemia do Covid-19, preferencialmente por meio de negociação coletiva, acordo coletivo, e por contrato de trabalho aditivo por escrito, com prazo determinado, tratando de forma específica sobre a responsabilidade pela aquisição, manutenção ou fornecimento dos equipamentos tecnológicos e da infraestrutura do trabalho remoto”, assinala o MPT.

Além de tudo isso, manter os salários em dia, sem cortes e não pressionar os profissionais com metas contraproducentes ao processo de aprendizagem são questões fundamentais. Entender o ensino remoto como circunstancial e manter todos os direitos trabalhistas e o respeito à pessoa humana, inclusive dos contratados para substituir seja por qualquer motivo o profissional efetivo é obrigação dos governantes.

*Por Francisca Pereira da Rocha Seixas

Isolamento pode ser estopim

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O afastamento social e a necessidade de ficar em casa é difícil para quase todas as pessoas. Se muitas enfrentam o tédio, há outras para as quais essa situação pode representar um risco de morte. Dados apontam que os casos de violência doméstica têm crescido, e especialistas indicam que a atual situação mundial é um dos fatores que agrava o problema. O estresse e a ansiedade causados pelo confinamento e pela incerteza diante da pandemia de Covid-19 podem ser o estopim para casos de agressão.

Lívia Castelo Branco fala sobre isolamento social. Foto: Divulgação

Segundo dados divulgados pela Agência Câmara de Notícias, a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos informou que as denúncias de violência doméstica cresceram em média 14% de janeiro até abril deste ano, em comparação ao mesmo período do ano passado. Somente no mês de abril, o aumento ficou em torno de 28%.

Conforme a psiquiatra da Holiste Livia Castelo Branco, os casais tendem a conviver pouco e isso ocorre mais em momentos de lazer. Essa convivência intensa no período de isolamento, em especial nas situações de maior desgaste e estresse, pode trazer conflitos que não existiam ou que estavam latentes.

“Os papéis dentro da casa também vão se modificando e um pode, por exemplo, começar a ter ciúmes da forma como o outro se comporta dentro de casa, ou pequenas coisas podem se tornar motivo de atrito, como a mulher convocar o homem a ajudar nas tarefas domésticas. Porém é importante alertar que momento atual – que gera ansiedade e estresse – pode ser a gota d´água, mas nunca será o único fator que leva à violência”, aponta Livia.

A psiquiatra ressalta que o confinamento traz à tona ansiedade e irritabilidade, porque reduz os estímulos externos – como trabalho, amigos, colegas, atividades de lazer – e, a partir do momento que a pessoa está em casa, sem esses estímulos, ela entra em contato com suas próprias angústias.

“Muitas vezes, as pessoas tendem a direcionar essa irritabilidade para quem estão convivendo no dia a dia. A questão econômica também pode ser um problema, porque as prioridades mudam e isso gera novos conflitos dentro da família. Tudo isso pode ser um agravante para a violência e desencadear um comportamento agressivo que já era latente naquele indivíduo”, completa a médica.

Livia salienta a importância das vítimas poderem contar com uma rede de apoio, formada de pessoas de confiança, com as quais elas possam conversar e encontrar apoio emocional, mas também contar em momentos críticos para receberem socorro.

”É importante o apoio de familiares, amigos, vizinhos, para que estas pessoas não estejam sozinhas diante dessa situação. As pessoas podem se colocar à disposição para dar socorro, sugerindo a criação de códigos para pedir ajuda, para que possam dar assistência à vítima, ou chamar a polícia. Em um momento de perigo iminente de violência, o ideal é evitar o confronto, se afastar e pedir ajuda, por uma questão de segurança. O ideal é que esse não seja o padrão do relacionamento – um se policiar o tempo todo para não irritar o outro. Se isso ocorre, já é um sinal de algo errado naquela relação. Porém, em um momento de perigo, evitar o conflito e pedir ajuda é o mais seguro”, completa Livia.