O pré-candidato(a) e a candidatura material: ser ou não ser

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Neomar Filho, Advogado eleitoralista

Pensar em Hamlet, sobre ser ou não ser pré-candidato(a), me parece útil e adequado. No âmbito jurídico-eleitoral é possível conceber inúmeras consequências de tal ato declaratório em período anterior à campanha propriamente dita. Para além de entender as vantagens de uma pré-candidatura, que são muito claras, é preciso visualizar, no sistema normativo atual, o outro lado da moeda. Ou seja, as suas implicações. O debate é interessante.

De sensação de liberdade à conduta vedada e abuso de poder, a pré-campanha declarada pode se revelar um misto de amor e ódio. Alegrias e tristezas. A verdade é que não há apenas o bônus em se declarar pré-candidato(a), e é preciso enfrentar esse diálogo. Ter estratégia para decidir o melhor momento de manifestar uma pré-candidatura é fundamental.

A minirreforma, sem dúvidas, resultou em importante colaboração para o processo democrático de escolha dos representantes no Brasil. Especialmente ao inserir o artigo 36-A na Lei das Eleições (Lei nº 9.504/97), que possibilitou um novo formato de se fazer política, beneficiando, em última análise, a formação de opinião e escolha. Daí que surgiu a possibilidade de se posicionar em redes sociais, estando autorizado a conceder entrevistas e a participar de reuniões fechadas, tudo isso com menção à sua condição de pré-candidato. A proibição, neste dispositivo, ficou limitada ao pedido explícito de voto.

Contudo, recentes decisões de Tribunais desnudam, aos poucos, a desnecessidade, durante os meses que antecedem o período eleitoral, do pedido de registro para a caracterização de abusos quando há declarada pré-candidatura. Neste sentido, não há um único contexto possível na pré-campanha. Não se pode encarar a ausência de solicitação explícita de voto como algo libertador ou um salvo-conduto. Isso porque, as práticas abusivas transbordam o período de registro de candidatos, e precisam ser estancadas em velocidade compatível – sob pena de seus efeitos impactarem profundamente no resultado das urnas (mesmo sem oficialmente iniciada a campanha).

Por vezes, neste cenário, a convenção partidária serve apenas para homologar aquilo que já fora decido há muito tempo. E o pedido de registro, nessas situações, se mostra ato meramente formal, para validar uma escolha divulgada meses antes. Assim, a definição material de candidato deve ser levada à diante para os prós e os contras, sobretudo em razão da necessidade de manutenção do equilíbrio do pleito eleitoral, e restabelecimento da paridade de armas antes mesmo das convenções.

Em determinadas situações, aguardar o pedido de registro é permitir, num alto nível de ingenuidade, a escolha viciada, ilegítima, de alguém que durante meses e meses (em pré-campanha) vinculou a sua imagem a práticas ilegais – sob o manto da proteção de inexistência formal de candidatura.

*Por Neomar Filho, advogado eleitoralista

Da imparcialidade à inelegibilidade

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Advogado eleitoralista, Neomar Filho

À luz do que estabelece a Lei Maior de nosso país, é garantido, a qualquer indivíduo, ser processado e sentenciado por um juiz imparcial. No Estado Democrático de Direito, há o necessário distanciamento entre as autoridades investidas na atividade judicante, e o cidadão comum. Trata-se de garantia constitucional irretocável. Entretanto, a conversão de conceitos, de imparcial à inelegível, em desfavor do magistrado, torna perigoso o casuísmo a que pretendem forçar o Direito Eleitoral (mais uma vez).

Há muito se diz que o juiz se manifesta nos autos, e nele constitui a sua morada. Ou assim deveria ser, em virtude dos comezinhos princípios que os envolve. E por uma razão não somente normativa, disciplinar. Mas por um significado social relevante: a confiança no próprio órgão jurisdicional. Nesse sentido, o Conselho Nacional de Justiça tem desempenhado papel relevante ao buscar (re)adequar eventuais excessos, julgando e repreendendo os seus pares, impondo os limites legais quando necessário. O atuar verbal do juiz, fora do processo, está sujeito a este crivo.

Mas não se pode confundir, principalmente por terem uma conceituação complexa no âmbito do contexto de normas eleitorais, inelegibilidade com quarentena, e muito menos com imparcialidade. Na Lei Complementar nº 64/90 é difícil acomodar este debate. E, no rol de termos usualmente difíceis, nos mais variados sentidos, ainda há de se ter lúcida a desincompatibilização. É preciso colocar os ”pingos nos is”.

Como dito, é dever da constituição a garantia ao juiz imparcial, distante, portanto, das partes, o que naturalmente impõe a este indivíduo uma discrição protocolar. Lado outro, exigir o total negacionismo de ator político que possui o magistrado, na tentativa de lhe impor prazos desarrazoados de inelegibilidade, em nada parece contribuir para o avanço da democracia brasileira. Obviamente continua-se desejando, por amor às regras básicas de direito, juízes imparciais e que prezem pela justa prestação jurisdicional. Uma coisa não exclui a outra.

Numa visão doutrinária sobre inelegibilidade, nota-se que a sua existência ou perfaz a prática de um determinado ato, e, portanto, é aplicada na forma consequencial (a exemplo da condenação transitada em julgado pela prática de um crime), ou pertence ao indivíduo por opção da própria Constituição: como é o caso do militar em serviço obrigatório. A impossibilidade de se pleitear uma determinada candidatura permanece até que a condição pessoal seja modificada, ou desapareça, ou após determinado prazo com o cumprimento da pena.

O militar, para fins de ilustração, fora do serviço obrigatório, pode ser candidato. Nem sequer o afastamento prévio lhe é exigido (desincompatibilização), como acontece em regra com os demais servidores públicos, nestes enquadrados os magistrados, membros do Ministério Público e autoridades dos Tribunais de Contas. Daí porque injustificado exigir um novo lapso temporal.

Ressalte-se, por oportuno, ser imprescindível, e positivo, o CNJ para o próprio funcionamento do Poder Judiciário, que faz as vezes de moderador para o resgate da imparcialidade quando apropriado. Por outro lado, seria preciso diversificar e muito a genética da inelegibilidade, aliada a alguma outra fonte do Direito Eleitoral, para se admitir, e ser no mínimo aceitável, a ideia de inelegibilidade per si por oito anos a ser aplicada aos magistrados e membros do MP, na modalidade ”quarentena” e travestido de ”lockdown” social.

Escrito por Neomar Filho

Direito Eleitoral

Advogado eleitoralista da NF Assessoria Jurídica, Membro da Comissão de Direito Eleitoral da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Bahia, Professor de Direito Eleitoral de cursos de graduação e pós-graduação. Foi pesquisador bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia, Procurador Municipal e Assessor Parlamentar na Câmara dos Deputados. Atua nas áreas eleitoral, partidário, público-municipal e perante tribunais de contas.

Ensino remoto para não ter aulas

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Francisca Pereira

Todas as informações acerca da pandemia da Covid-19 no Brasil, nos levam a ser contra a flexibilização da quarentena que está sendo feita sem observar os critérios determinados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A OMS orienta o relaxamento do isolamento social somente quando a taxa de retransmissão do novo coronavírus estiver abaixo de 1, para mostrar que está sob controle.

Não é o caso do Brasil, nem de São Paulo. Segundo o projeto Covid-19 Analytcs, o estado de São Paulo estava com uma taxa de retransmissão de 1,19 em 30 de junho. Com a flexibilização feita pelo governador João Doria essa taxa pode ter variado.

Por isso, é importante defender o retorno à quarentena com os governos federal e estadual tomando as medidas necessárias para a preservação dos empregos e das pequenas e médias empresas que estão fechando. Mais de 500 mil já fecharam as portas.

Para piorar, o desgoverno Bolsonaro/Guedes defende o fim do auxílio emergencial de R$ 600, aprovado pelo Congresso. Com o desemprego e a informalidade nas alturas, o não pagamento do auxílio emergencial pode afetar amargamente milhares de famílias, que já estão no limite da sobrevivência.

Nesse contexto em que morrem mais de mil pessoas por dia em média no país, sem vacina, com o Sistema Único de Saúde (SUS) colapsado, a falta de testagem em massa e a forte possibilidade das crianças se tornarem transmissores do vírus é temerário o retorno às aulas presenciais.

Principalmente porque a rede de ensino pública estadual e municipais não reúnem as condições determinadas pela OMS e pelos cientistas para impedir a contaminação dessas crianças e jovens nas escolas.Controlar a pandemia é essencial.

É humanamente impossível impedir as crianças menores ao contato físico e mantê-las de máscara o tempo todo. Mesmo as crianças um pouco maiores sentem dificuldade em ficar distanciadas dos amiguinhos.

Mas o mais importante é saber que as escolas não têm a mínima estrutura para as adequações necessárias para conter a disseminação do coronavírus. As entradas teriam que ser adaptadas para higienizar quem entra na escola, os banheiros deveriam funcionar plenamente e com sabonete e papel higiênico. Os bebedouros higienizados, álcool gel espalhado por todos os ambientes e as salas de aula bem arejadas com ventilação adequada e espaço para o distanciamento necessário.

Como as escolas públicas de São Paulo deixam muito a desejar sobre todas essas questões, os riscos de contaminação para as professoras, professores, demais profissionais, estudantes e seus familiares são extremamente grandes e ninguém quer ser responsável pelo aumento do número de doentes e mortes. O bom senso determina manter as aulas presenciais suspensas até haver um controle efetivo da pandemia ou uma vacina eficaz.

No caso específico dos professores da rede de ensino oficial do estado de São Paulo, o governo tem a obrigação de rever os contratos temporários e pagar os seus salários integralmente. Esses contratos são feitos de forma precária. Sem os mesmos direitos dos efetivos e com salários menores, esses profissionais estão com os contrtos suspensos, sem receber anda do estado. A situação dos chamados “eventuais”, também requer atenção. São eles que substituem as professoras e os professores que se afastam por problemas de saúde ou que precisam se ausentar do trabalho em determinado dia. Esses profissionais não podem continuar sem receber pagamento do estado.

O governo estadual precisa realizar concursos públicos para prover a demanda das escolas públicas, mas enquanto isso não acontece deve honrar o compromisso de manter o pagamento dos contratados temporariamente e dos “eventuais”, além de estender todos os direitos trabalhistas dos efetivos para eles.

Dito isso, é fundamental nos debruçarmos sobre o ensino remoto de apoio pedagógico para suprir a demanda escolar sem prejuízo ao ano letivo. Como o ensino remoto aplicado pela Secretaria Estadual de Educação de São Paulo foi feito de maneira atropelada, sem diálogo e sem nenhum preparo técnico para as partes interessadas, é necessário fazer adequações que contemplem a todas e todos, sem pressão e sem sobrecarga de trabalho, ouvindo todas as partes para não haver nenhum estudante sem aula.

Essencial levarmos em conta as condições determinadas pelo Ministério Público do Trabalho (MPT). Primeiro, é necessários estabelecer o diálogo com os órgãos representativos da categoria, fornecer equipamentos e suporte técnico aos profissionais e estruturar as escolas. e isso demanda muito tempo.

Qualquer atividade escolar, seja presencial ou digital deve levar em conta o princípio básico da liberdade de cátedra e da liberdade de expressão tanto de quem ministra a aula como dos estudantes.

Respeitar a carga horária de trabalho e o tempo necessário de descanso entre uma atividade e outra, seja para a realização de vídeos, sejam aulas remotas ao vivo.

Como determina o MPT: “A liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber, o pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, bem como o princípio da valorização dos profissionais da educação escolar, ambos previstos no artigo 206 da Constituição Federal de 1988”.

Também é importante levar em conta a profunda desigualdade socioeconômica e educacional para realizar um trabalho que contemple a todos e não privilegie ninguém. Saber lidar com as discrepâncias entre os sexos sobre o trabalho doméstico, no qual as mulheres trabalham muito mais horas do que os homens, acarretando numa sobrecarga de trabalho bem maior também faz parte do contexto.

As “medidas necessárias pelas instituições de ensino para propiciar a compatibilidade da vida profissional e familiar de docentes em trabalho por meio de plataformas virtuais, trabalho remoto e/ou em home office; regular a prestação de serviços por meio de plataformas virtuais, trabalho remoto e/ou em home office, no período de medidas de contenção da pandemia do Covid-19, preferencialmente por meio de negociação coletiva, acordo coletivo, e por contrato de trabalho aditivo por escrito, com prazo determinado, tratando de forma específica sobre a responsabilidade pela aquisição, manutenção ou fornecimento dos equipamentos tecnológicos e da infraestrutura do trabalho remoto”, assinala o MPT.

Além de tudo isso, manter os salários em dia, sem cortes e não pressionar os profissionais com metas contraproducentes ao processo de aprendizagem são questões fundamentais. Entender o ensino remoto como circunstancial e manter todos os direitos trabalhistas e o respeito à pessoa humana, inclusive dos contratados para substituir seja por qualquer motivo o profissional efetivo é obrigação dos governantes.

*Por Francisca Pereira da Rocha Seixas

Isolamento pode ser estopim

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O afastamento social e a necessidade de ficar em casa é difícil para quase todas as pessoas. Se muitas enfrentam o tédio, há outras para as quais essa situação pode representar um risco de morte. Dados apontam que os casos de violência doméstica têm crescido, e especialistas indicam que a atual situação mundial é um dos fatores que agrava o problema. O estresse e a ansiedade causados pelo confinamento e pela incerteza diante da pandemia de Covid-19 podem ser o estopim para casos de agressão.

Lívia Castelo Branco fala sobre isolamento social. Foto: Divulgação

Segundo dados divulgados pela Agência Câmara de Notícias, a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos informou que as denúncias de violência doméstica cresceram em média 14% de janeiro até abril deste ano, em comparação ao mesmo período do ano passado. Somente no mês de abril, o aumento ficou em torno de 28%.

Conforme a psiquiatra da Holiste Livia Castelo Branco, os casais tendem a conviver pouco e isso ocorre mais em momentos de lazer. Essa convivência intensa no período de isolamento, em especial nas situações de maior desgaste e estresse, pode trazer conflitos que não existiam ou que estavam latentes.

“Os papéis dentro da casa também vão se modificando e um pode, por exemplo, começar a ter ciúmes da forma como o outro se comporta dentro de casa, ou pequenas coisas podem se tornar motivo de atrito, como a mulher convocar o homem a ajudar nas tarefas domésticas. Porém é importante alertar que momento atual – que gera ansiedade e estresse – pode ser a gota d´água, mas nunca será o único fator que leva à violência”, aponta Livia.

A psiquiatra ressalta que o confinamento traz à tona ansiedade e irritabilidade, porque reduz os estímulos externos – como trabalho, amigos, colegas, atividades de lazer – e, a partir do momento que a pessoa está em casa, sem esses estímulos, ela entra em contato com suas próprias angústias.

“Muitas vezes, as pessoas tendem a direcionar essa irritabilidade para quem estão convivendo no dia a dia. A questão econômica também pode ser um problema, porque as prioridades mudam e isso gera novos conflitos dentro da família. Tudo isso pode ser um agravante para a violência e desencadear um comportamento agressivo que já era latente naquele indivíduo”, completa a médica.

Livia salienta a importância das vítimas poderem contar com uma rede de apoio, formada de pessoas de confiança, com as quais elas possam conversar e encontrar apoio emocional, mas também contar em momentos críticos para receberem socorro.

”É importante o apoio de familiares, amigos, vizinhos, para que estas pessoas não estejam sozinhas diante dessa situação. As pessoas podem se colocar à disposição para dar socorro, sugerindo a criação de códigos para pedir ajuda, para que possam dar assistência à vítima, ou chamar a polícia. Em um momento de perigo iminente de violência, o ideal é evitar o confronto, se afastar e pedir ajuda, por uma questão de segurança. O ideal é que esse não seja o padrão do relacionamento – um se policiar o tempo todo para não irritar o outro. Se isso ocorre, já é um sinal de algo errado naquela relação. Porém, em um momento de perigo, evitar o conflito e pedir ajuda é o mais seguro”, completa Livia.

Rede social em tempo de isolamento

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Manuela Berbert é publicitária.

Somos as nossas conexões. A nossa rede de relacionamentos, que começa ainda na infância com a família e que se estende ao longo da vida, com os ciclos de amizade e relacionamento amoroso, colegas de trabalho etc. Um vai e vem de pessoas e momentos, e com eles, claro, lições e inúmeros aprendizado. E ”se você nasceu com uma visão privilegiada, o seu papel não é abrir guerra contra quem pensa diferente, mas sim levar adiante o que tem de conhecimento”, escutei dia desses, e concordo demais.

Com a crise mundial do COVID-19 e o isolamento social, as conexões virtuais nunca estiveram tão em alta. O universo digital tomou ainda mais força, e com a ela a necessidade de reinventar formas de estar presente, de ser presente. As fórmulas prontas já não constroem resultados significativos, conseguindo até manter um certo “espaço”, mas não gerando audiência. (E isso vai impactar diretamente nas próximas eleições, mas esse assunto é pauta para outro texto).

Há exatamente uma semana iniciei um projeto no Instagram chamado Manu Convida Mulheres. Doze mulheres, das mais diversas áreas e atuações profissionais, estão sendo convidadas a contar suas histórias. E quantas histórias lindas de superação e crescimento temos! Todas narradas com erros e acertos, mas com muita coerência nas falas e atitudes, inclusive nos elogios aos parceiros que validam e incentivam seus progressos. Não há necessidade de rivalidade entre gêneros. O que há é necessidade de igualdade entre todos.

Há algumas semanas convidei um amigo para pautar um tema específico, e fui ignorada. Lembrei que todos os nãos que a vida me deu, transformei. E assim nasceu um projeto que vem inspirando centenas de pessoas por dia. Com toda certeza, colocarei mais esse trecho no meu livro da vida: quando uma pessoa tentou ”abafar” a minha voz, eu dei voz e espaço a doze, com o sorriso no rosto e a delicadeza que toda mulher forte tem!

Manuela Berbert é publicitária.

A Granada de Guedes não explode

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Há apenas quatro dias após a divulgação dos vídeos, o Presidente Jair Bolsonaro assinou uma Medida Provisória concedendo aumento a policiais civis e militares do Distrito Federal. O aumento, para ambas as classes, correspondeu a 8%. Em um momento delicado como esse, de pandemia, o aumento pode ser considerado um disparate.

Em um dos trechos da famigerada reunião ministerial, onde não faltaram crimes de responsabilidade e ataques infundados a instituições, o Ministro da Economia, Paulo Guedes, soltou uma bomba percebida por poucos. Em meio a palavrões e xingamentos grotescos, o Chicago Boy declarou: “Nós já botamos a granada no bolso do inimigo (servidores públicos): dois anos sem aumento de salário”. No entanto, como poderia dizer George Orwell, em uma alusão à sua obra “A Revolução dos Bichos”, há servidores que são mais servidores do que outros.

Há apenas quatro dias após a divulgação dos vídeos, o Presidente Jair Bolsonaro assinou uma Medida Provisória concedendo aumento a policiais civis e militares do Distrito Federal. O aumento, para ambas as classes, correspondeu a 8%. Em um momento delicado como esse, de pandemia, o aumento pode ser considerado um disparate. O País vive sua pior crise financeira da história recente e o desemprego aumenta, a cada dia, assim como a Covid-19, doença que o governo insiste em não combater.

Mas por que um aumento inesperado, para uma classe específica? Todos sabemos que a polícia é o braço armado do governo fascista de Bolsonaro. Na situação em que se encontra, acuado e em busca de aliados indecorosos, onde dar ou levar um golpe é questão de tempo, chamar a polícia para seu lado é, ao seu modo de ver, um ato de estratégia. Não de governo.

Destaca-se que os bombeiros do DF, pela paridade que possuem com a PM, também tiveram seus vencimentos aumentados pela Medida Provisória. Mas qual será o impacto financeiro para o governo? Na Polícia Civil, o salário inicial de um Agente de Polícia, que girava em torno de R$ 8.698,78 passará a ser de aproximadamente R$ 9.394,68. No caso dos os militares, para o cargo de Coronel, último na hierarquia, o vencimento passará de R$ 7.279,17 para R$ 9.098,96.

Bolsonaro não governa mais, ele se protege. Não existe mais plano para o país. Ele apenas pensa como amparar a si e a seus filhos. E é melhor que seus ministros lhe obedeçam, caso contrário, como ficou claro na reunião, serão sumariamente demitidos e substituídos por um militar que não conteste suas ordens. E enquanto isso, cada brasileiro carrega uma granada no bolso.

*Por Guilherme Coutinho

Guerra de posições

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Fiel a uma tática bem sucedida estrategicamente, Jair Bolsonaro lança mão do popular ”bate, assopra” – com o detalhe que a cada dia bate mais forte e assopra menos. Mesmo que suas destemperanças verbais recebam enxurradas de críticas, desaprovações e repúdios, o cálculo político do Presidente acerta por assegurar que uma parcela expressiva da sociedade lhe renda apoio, tributo e dedicação, reproduza seu discurso e se ponha de prontidão para um chamamento mais decidido.

Há inclusive quem especule que o plano golpista se valha justamente desses segmentos radicais, fanáticos e extremistas para avançar tal qual a Marcha dos Camisas Negras na Itália. Ou que se repetiria o modelo aplicado recentemente na Bolívia, onde milícias e grupos paramilitares protagonizaram o grosso das ações que depuseram Evo Morales.

Ciente de que somente esse suporte não lhe dá condições de lograr êxito, faz uso recorrente de uma ”retrotopia” ao invocar a Ditadura Militar e colocar as Forças Armadas como fiadoras de suas pretensões antidemocráticas. O mal estar reclamado pela caserna não autoriza baixar a guarda, tampouco atribuir aos militares – de vasto portfólio intervencionista nas questões nacionais – um fator de estabilidade e segurança.

Corretamente, o jornalista Florestan Fernandes Jr. identificou um aspecto nada desimportante do jogo político: quem tem as FFAA consigo não precisa do Centrão. Mas sendo válido acatar tal raciocínio, também é lícito supor que isso pode ser não mais do que manobra diversionista. Ou um fôlego para ultrapassar momentaneamente as dificuldades postas pela crise econômica, a pandemia, o aparecimento de um flanco opositor no campo interior da burguesia e a queda relativa de popularidade.

No intrincado cenário que evolui em meio às contradições e conflitos, há a possibilidade de comparar – longe dos rigores metodológicos e historiográficos – as situações em curso com duas características que marcaram a 1ª Guerra Mundial no plano bélico: a guerra de posições e a guerra de movimento. Bolsonaro aproveita a excepcionalidade da conjuntura para posicionar suas tropas e artilharia. Estipula fortalecer trincheiras políticas ocupando terrenos mais favoráveis para um embate futuro – que virá – em condições superiores. Sabe ele que mais hora, menos hora, as tropas irão se movimentar para o combate aberto e, precavido, estabelece seu perímetro.

As oposições – a de Direita e a de Esquerda – ainda não trabalham em sincronia, unidade e acordo. Inegável que são adversários do regime, porém patinam nas idiossincrasias de uma visão política que subestima o potencial do fascismo, crédulas que estão nos instrumentos da Democracia. Ensaiam timidamente alguma ação conjunta, mas se chocam por causa das divergências quanto a agenda econômica, submetendo a Política a esse dado que não deveria ser o centro de qualquer iniciativa honesta que preconize a luta contra o perigo golpista e ditatorial.

Ocupa, assim, posições piores, deixa flancos expostos, confunde o efetivo militante com oriente dúbio e vacilante, enfim, prepara-se muito mal para o inevitável confronto em movimento. Apegada a padrões antiquados do fazer politico – os mesmos que decretaram a derrota eleitoral em 2018 – aguardam a batalha sem ordem unida, sem propósitos comuns, sem objetivos estratégicos.

Ainda resta tempo e espaço para definir e determinar posicionamentos inteligentes, capazes de resolver a principal questão que ameaça o edifício social e estatal. Não será fácil, simples e livre de sacrifícios e concessões de ambos os lados contrários à continuidade desse desgoverno. Forjar uma Frente Ampla de Salvação Nacional historicamente sempre apresenta dois fatores: a convicção e a funcionalidade, mas quando faltam opções recomenda-se trilhar por esse caminho sob pena de não ter uma segunda chance. Tomar as posições corretas e organizar a mobilização para a guerra aberta que se anuncia ainda que tardias são urgências. Oxalá os ”generais” cheguem a um consenso.

*Por Alex Saratt

Coronavírus provoca inflamação no coração

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O novo coronavírus (Covid-19) pode levar danos ao coração, gerando complicações como infartos, miocardites, insuficiência cardíaca, isquemia e tromboses, condições que podem agravar ainda mais o quadro clínico dos pacientes.

A conclusão foi feita pela Sociedade de Cardiologia, que monta registro nacional de complicações cardíacas e tem observado, por meio de estudos, que a maioria dos casos confirmados de Covid-19 e das mortes pela doença ocorrem em portadores de hipertensão, insuficiência cardíaca e arritmias.

Mas alguns relatos já mostram que, em menor número, mesmo doentes sem essas condições crônicas prévias podem ser afetados. ”O paciente tem o infarto e, quando você vai olhar, a coronária é normal. O infarto é secundário à inflamação”, afirma a cardiologista Ludhmila Hajjar, médica e professora do InCor (Instituto do Coração) de São Paulo.

Segundo ela, o dano mais comum ocorre no músculo cardíaco e nos vasos sanguíneos como resultado da própria inflamação provocada pela Covid-19. ”Da mesma forma que ela causa pneumonia, a doença também gera inflamação no coração ou em qualquer artéria do coração e aumenta a suscetibilidade à arritmias e a problemas no músculo e nos vasos”, afirmou.

Em pacientes internados em UTI com pneumonia por coronavírus, alguns estudos mostram que há dano no miocárdio em 7,2% dos pacientes, choque em 8,7%, arritmia em 16,7% e insuficiência cardíaca em 23%.

A cardiologista Gláucia Moraes de Oliveira, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), explicou que a inflamação causada pela doença ainda propicia um pior efeito das drogas, como cloroquina e azitromicina associadas, que podem causar arritmias malignas em pacientes cardiopatas.

”A pandemia da Covid-19 desafia os pesquisadores. A forma atual de produção do conhecimento científico, alicerçada na chamada medicina embasada em evidência, foi posta em xeque. Ensaios clínicos randomizados não oferecem respostas a curto prazo e por vezes são onerosos e inconclusivos, sem contar o viés de serem, quase sempre, financiados pela indústria farmacêutica”, avaliou o presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Marcelo Queiroga. As informações são da Folha de S.Paulo.

O vírus que nos humanizou

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A necessidade do isolamento social, sob o decreto de quarentena em vários países, causou modificação forçada em nossa rotina. Para muitos, uma prova de fogo ter que conviver “preso” em suas casas, sem interação e contato social físico.  Para pais e mães, o momento de curtirem, apreciarem e até mesmo suportarem seus filhos. Fomos forçados a essas atitudes. Ou se faz isso, ou pioramos a situação, proliferando rapidamente a pandemia e sobrecarregando os hospitais – públicos e privados.

Junto a essa pausa imposta, a natureza, tão negligenciada, também mostra sua cara e nos dá o recado de que ainda podemos salvar nossa casa. Com o confinamento da espécie humana, outras espécies puderam sair e ocupar seus legítimos lugares. Paralelamente, índices de poluição reduziram drasticamente, permitindo uma sobrevida ao planeta. Impossível não se surpreender com algo que era para ser comum, como a transparência dos canais de Veneza (ainda que a qualidade da água não tenha melhorado), ou a aproximação de animais que viviam a se esconder de nossa presença.

Passamos também a ter tempo. Isso nos estranhou, afinal, estávamos acostumados a correr tanto, que apenas sobrevivíamos; acordávamos, trabalhávamos, mal nos alimentávamos e dormíamos poucas horas. Hoje a vida nos obriga a parar e rever tudo isso. É momento de repensarmos nossas atitudes. Será que precisamos consumir tudo o que consumimos? Precisamos trabalhar tanto a ponto de esquecermos nosso lar, priorizando coisas não tão importantes?

Nosso isolamento nos remete também a uma palavra esquecida até então: empatia. Com os abusos do capitalismo, a solidariedade passou a não ter espaço; o ter sobrepôs ao ser. Esquecemos o coletivo. E isso de nada adiantou: ricos e pobres, todos no mesmo barco. A luta pelo social se fez presente, quer queiram ou não. É o momento de acalentarmos que está em pânico e sofrendo com a ansiedade; momento de estendermos as mãos – ainda que virtualmente – a quem mais precisa.

Curiosamente, li um artigo científico tempos atrás que falava do papel do isolamento social justamente na evolução e sobrevivência das espécies. De acordo com estudo de Bailey e Moore (2018), as experiências ambientais dos animais podem afetar a expressão gênica e determinar quais são ativados, quando e quanto, afetando as respostas à seleção natural em termos de sobrevivência e reprodução. Para os pesquisadores, esse isolamento, ainda que temporário, seria favorável para a evolução de algumas espécies. Em tempos de coronavírus, será que podemos esperar uma evolução parecida entre as pessoas? Ainda que de maneira forçada, as pessoas terão que conviver com seus próprios pensamentos e rever suas atitudes e ações tornam-se inevitáveis. Poderíamos ativar novamente genes adormecidos, responsáveis pela solidariedade e empatia, por exemplo?

Nesses dias de reclusão, assisti ao brilhante filme de Emir Kusturika chamado “El Pepe, uma vida suprema”, onde a vida de José Mujica é retratada de forma espetacular, tal como é notório nos filmes desse diretor. E duas frases de Mujica me tocaram exatamente pelos dias que estamos passando: “A LUTA É COLETIVA” e “O SOCIALISMO TRIUNFARÁ”. Pepe Mujica é um ser humano fantástico, e foi exemplar presidente, forjado durante os anos sombrios da ditadura, e que por conta disso hoje é essa pessoa de vida humilde e simples, como ele mesmo disse. Nós aqui, indignados muitas vezes, bravos e até depressivos por termos que passar alguns dias em nossas casas, deveríamos olhar para seu exemplo. Mujica ficou isolado por mais de dez anos, sem nenhum tipo de regalia como temos hoje. Nesse tempo, ele cresceu e amadureceu para ser o que é até hoje: um humanista e preocupado com o povo.

Tomemos seu exemplo como objetivo e reflexão nesses dias. E que essas mudanças forçadas que temos tomado, nos sirvam de exemplo para que voltemos a ser humanos!

*Por Luiz Fernando Padula / Professor, biólogo, doutor em Etologia, mestre em Ciências, autor do blog ‘Biólogo Socialista’

Afinal, cães e gatos podem transmitir o novo coronavírus?

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A notícia de que o novo coronavírus havia sido detectado em um cão na cidade de Hong Kong deixou alguns tutores de animais domésticos confusos sobre a possibilidade do seu pet transmitir a doença. Confirmada pelo Departamento de Agricultura, Pesca e Conservação de Hong Kong, a informação primária é de que o animal não apresentou nenhum sintoma e que o teste será refeito para verificar se o cachorro foi realmente infectado pelo vírus ou se o resultado foi alterado por algum tipo de contaminação ambiental.

Apesar do susto, segundo a médica veterinária Nádia Rossi, não há motivo para pânico entre donos de cães ou gatos, ou criadores de animais no geral. De acordo com o Membro da Comissão de Ética, Bioética e Bem-estar Animal do Conselho Regional de Medicina Veterinária da Bahia (CRMV-BA) e coordenadora do Laboratório de viroses da Ufba, a falta de informações sobre o teste realizado no cão de Hong Kong invalida qualquer certeza de que os animais domésticos representem formas de infecção.

”Ainda existem muitos estudos para serem feitos, até agora foi um cachorro só, não é uma amostra representativa. O próprio governo fala que pode ter sido uma contaminação ambiental e sugerem um reteste que até agora não foi divulgado o resultado. Outra coisa, eles nem falam qual foi o teste feito”, afirmou em entrevista ao A Tarde.

”Gerou-se um pânico, uma coisa generalizada, em cima de uma notícia que a princípio não tem nenhum valor científico para gente. Pelo contrário, gera uma preocupação muito grande com relação a abandono e maus tratos”, continuou.

Em um primeiro momento, a suspeita era de que o pangolim, animal em risco de extinção, cuja carne é consumida na China, seria o responsável por transmitir o covid-19 ao ser humano. No entanto, segundo Nádia, alguns estudos apontam que a origem do problema possa estar no morcego.

”O que se sabe até hoje sobre esse covid-19 é que ele de fato é uma zoonose (doenças infecciosas capazes de ser transmitidas entre animais e seres humanos). Com o morcego pode ser mais fácil de acontecer, pois ele está em qualquer lugar, seja ambiente domiciliar ou urbano por conta do desmatamento. A gente acaba tendo um contato indireto”, disse.

Para a veterinária, vale um estudo aprofundado sobre a participação do morcego, mais conhecidos por transmitirem raiva, na disseminação de outros vírus. Porém, ela reforça a importância do animal para o meio ambiente e chama a atenção contra qualquer tipo de mau trato.

”Não podemos criminalizar ou matar os morcegos. Eles são muito importantes para a gente. São grandes polinizadores depois das abelhas. Só as pesquisas que precisam estar um pouquinho mais voltadas às viroses de morcego, porque a gente tem percebido que os coronavírus são zoonóticos”, defendeu.

Outros tipos de Coronavírus

Ainda não há provas ou evidências de que os pets possam contrair ou transmitir o covid-19, no entanto, gatos e cachorros estão passíveis de serem infectados por outros tipos de coronavírus. Mas conforme adianta Nádia, as doenças só atingem suas respectivas espécies e não são transmitidas para humanos.

O cachorro pode apresentar dois tipos de coronavírus. Um dos vírus causa diarreia no animal e o outro, que lembra os sintomas observados no covid-19, provoca problemas respiratórios.

”A diarreia é aguda, mas não chega a ser fatal. Já na doença respiratória, o outro tipo de coronavírus é observado na chamada ‘Tosse dos Canis’, que é como se fosse uma gripe nos cães”, explicou.

O gato também pode sofrer com a família viral por meio do Coronavírus Entérico Felino, mas sem maiores consequências. O perigo é se o vírus sofrer uma mutação e favorecer o surgimento de Peritonite Infecciosa Felina (FIPV), que é fatal para o animal.

No caso do cão, é possível prevenir doença por meio da vacina polivalente V8. Já para o gato ainda não existe vacina licenciada. Não há recomendações para os pets, que devem manter em dia as visitas ao veterinário e não usarem álcool em gel.

E quanto ao ser humano? Existe alguma forma de prevenção? Pensando no além da recomendação geral de lavar bem as mãos e usar o álcool em gel, Nádia acredita que o combate a desinformação em torno do coronavírus pode ajudar bastante no combate da doença e dos mitos em torno dela.

”Infelizmente estamos lidando com muita fake news. O Ministério da Saúde disponibiliza um canal bacana para isso. Tem um grupo de pesquisadores com um médico veterinário também. Então, nada de compartilhar desinformação para não causar morte de cão e gato, que a gente acha até que não tem relação nenhuma com o coronavírus”, recomendou.

O novo coronavírus

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Pela Psicóloga Marina Prado Franco. Foto: Divulgação

Com o surgimento de epidemias como a do novo coronavírus, proveniente da China, e alguns casos suspeitos do vírus no Brasil, os brasileiros ficam em alerta constante. Essa situação de alerta, porém, muitas vezes, pode vir acompanhada de um medo desproporcional de ficar doente, ou até mesmo, de um medo da morte.

O medo é um sentimento natural do ser humano, o qual é extremamente importante, pois nos protege em várias situações de perigo iminente. Contudo, existe o que chamamos de medo ”normal” e o que seria considerado um medo patológico. O medo normal considera as probabilidades estatísticas, não traz grandes prejuízos à vida dos indivíduos e serve como proteção a perigos reais.

O medo patológico é um medo que passa a determinar nossas ações, ou seja, para tomarmos qualquer atitude, o medo é ”consultado”. O que ocorre, então, é que, na maior parte das vezes, passamos a evitar diversas situações ou a buscar aconselhamento a todo momento.

Especificamente, em relação ao medo ou ansiedade por doença, o indivíduo está sempre preocupado de ter ou adquirir alguma doença. A partir disto, a pessoa fica com a sua atenção mental concentrada em reconhecer os possíveis sintomas de determinada doença, torna-se hipervigilante, fica mais ansiosa e, então, apresenta sensações autossugestionáveis em razão da ansiedade, na realidade.

Nesses casos de ansiedade por doença, o indicado é que esses indivíduos enfrentem os seus medos, seja buscando conhecimento sobre a doença e suas probabilidades reais, seja levando em conta dos exames realizados que não deram nenhum diagnóstico, seja cuidando da sua saúde ao fazer exercícios físicos e ter uma alimentação saudável.

Desta forma, o foco torna-se a saúde e não a doença. No caso do coronavírus novo, os indivíduos devem estar ligados nas estatísticas atuais que não trazem nenhum caso confirmado no Brasil e, assim, devem tomar as precauções que estão no seu controle como lavar as mãos, evitar contato próximo com pessoas resfriadas, entre outras. Preocupações funcionais, com foco na saúde e não na doença.

(*) Marina Prado é psicóloga formada pela Universidade Federal de Sergipe; Especialista em Terapia Cognitivo Comportamental pelo CTC VEDA em São Paulo; Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP; realiza atendimento presencial e online. Tem experiência no atendimento com adolescentes e adultos.

Feitiço vira contra o feiticeiro

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Muitos amigos me perguntam se o problema da Petrobras hoje é que a empresa está sendo administrada como uma empresa privada. Nâo é verdade pois uma empresa privada não cria uma politica de preços para entregar seu mercado aos concorrentes, assim como não vende ativos que rendem mais de 20% ao ano para amortizar divida que custa menos de 7% ao ano.

A administração da Petrobrás publicou nesta quarta-feira (19) informações sobre o resultado da empresa em 2019. Falta ainda a publicação de alguns dados relevantes, como as demonstrações em dólares.

O Presidente, Castello Branco, divulgou mensagem com o título “O PRIMEIRO ANO DA IMPLEMENTAÇÃO DE UMA NOVA ESTRATÉGIA”

“UMA NOVA ESTRATÉGIA” ??  Desculpe Sr. Presidente, mas o Sr. está querendo se apropriar de conquistas dos seus antecessores.

Na verdade a atual estratégia teve início em 2016, cujas bases, brilhantemente implantadas por Pedro Parente, estão em vigor até hoje, quais sejam:

– A “jabuticaba” da métrica  “dívida liquida/ebida ajustado”, fajuta e extemporânea como mostramos no artigo:

– A “jabuticaba” da política de preços baseada no Preço de Paridade de Importação – PPI. Um crime que vem sendo praticado contra a população brasileira, a própria Petrobras e à economia da nação, como mostramos no artigo a seguir, que incorpora a compreensão dos caminhoneiros brasileiros em carta encaminhada ao Presidente Bolsonaro:

Depois de discorrer longamente sobre o desempenho dos papéis da companhia na Bolsa de Valores, que é um cassino de apostas e nada tem a ver com a realidade da empresa. Onde a palavra chave é “dividendo” esteja a empresa bem ou mal. O Presidente Castello Branco passou para a apresentação do “me engana que eu gosto”com frase esclarecedora de suas intenções “Nossas atividades geraram em 2019 um lucro líquido de R$ 40 bilhões, o maior da história da Petrobras”

Depois de discorrer longamente sobre o desempenho dos papéis da companhia na Bolsa de Valores, que é um cassino de apostas e nada tem a ver com a realidade da empresa. Onde a palavra chave é “dividendo” esteja a empresa bem ou mal. O Presidente Castello Branco passou para a apresentação do “me engana que eu gosto”com frase esclarecedora de suas intenções “Nossas atividades geraram em 2019 um lucro líquido de R$ 40 bilhões, o maior da história da Petrobras”

Será que ele não sabe ? Será que ele esqueceu ? O resultado de R$ 40 bilhões foi obtido com R$ 24 bilhões de lucro com venda de ativos , principalmente com a TAG, e R$ 14 bilhões com a venda do controle da BR Distribuidora. Ou seja, dos R$ 40 bilhões, R$ 38 bilhões nada tem a ver com o desempenho da companhia.

Mesmo assim, no período foram distribuídos mais de R$ 10 bilhões aos acionistas, mostrando ao mercado o empenho do Presidente, que, na falta de lucro, vende ativos para pagar dividendos. Maravilha.

Mas o Presidente tem também os seus méritos, em apenas um ano de administração quebrou recordes históricos, vejam :

LIQUIDEZ CORRENTE  

Este tradicional indicador da capacidade da empresa cumprir com seus compromissos de curto prazo é apurado pela divisão do Ativo Corrente pelo Passivo Corrente. Quanto maior o indicador, mais confortável a situação financeira da empresa . A seguir os dados históricos :

Liquidez Corrente Petrobras

2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019

 1,9    1,8     1,7    1,5    1,6    1,5     1,8     1,9    1,5    0,95

Parabéns Presidente Castello Branco, o recorde de menor liquidez corrente da história da companhia é seu

ESCONDENDO FATOS HISTÓRICOS 

O Presidente Castello Branco é um mestre em esconder dados positivos da companhia. Assim não existe nenhuma comemoração nem mesmo divulgação quando entram em produção novas plataformas, pois são efeitos da descoberta do pré-sal, que os administradores atuais não tiveram qualquer participação, e dos investimentos feitos no período 2009 a 2014 quando foram investidos mais de US$ 250 bilhões .

Mas o Presidente Castello Branco vai além. Qualquer empresa petroleira no mundo que ganhasse o premio da OTC, principal premio da indústria de petróleo e gás, procuraria divulgar o fato o mais rapidamente possível e na maior itensidade.

A Petrobras pela quarta vez ganhou o premio, que foi anunciado no final de semana (8/9 de fevereiro de 2020). No dia 11 publiquei artigo com a pergunta : “Será que vão vender o premio também  ?”

Recebi muitas ligações de petroleiros, inclusive lotados no Cenpes, perguntando onde eu havia obtido a informação, pois ninguém havia sido informado do fato.

Só no dia 12 a direção da companhia divulgou (fatos e dados) o recebimento do premio. Sem qualquer comemoração.

Seria porque toda a tecnologia foi desenvolvida antes de 2016, sem nenhuma participação dos atuais administradores que hoje estão mais preocupados em destruir tudo, inclusive o próprio Cenpes ?

Muitos amigos me perguntam se o problema da Petrobras hoje é que a empresa está sendo administrada como uma empresa privada.

Nâo é verdade pois uma empresa privada não cria uma politica de preços para entregar seu mercado aos concorrentes, assim como não vende ativos que rendem mais de 20% ao ano para amortizar divida que custa menos de 7% ao ano.

Por outro lado numa empresa privada o Presidente que no dia da posse falasse que seu sonho é vender a empresa, seria demitido na mesma hora.

Outros me perguntam se o problema é que estão preocupados só com a remuneração dos acionistas.

Também não verdade. Se fosse assim estariam investindo para aumentar a capacidade de produção da companhia para 10 milhões de barris dia em 2030 ;

Mas então qual é o objetivo da atual administração ? Simplesmente dilapidar a companhia e isto eles vem fazendo bem.

*Por Cláudio Costa Oliveira, economista aposentado da Petrobras

Violência contra a mulher & Damares Alves

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Damares não foi a única mulher a ser acolhida em situação de violência no universo pentecostal. Milhões de Damares que nunca foram ouvidas pelo Estado e nem consideradas protagonistas em um projeto de país progressista. O drama delas nunca foi a escolha entre a democracia liberal e o socialismo de mercado. Elas nunca tiveram escolha que não fosse a igreja evangélica.

A Ministra Damares Alves conta com altos índices de aprovação na sociedade brasileira. Engana -se fortemente quem pensa que essa aprovação é restrita ao universo neopentecostal – em dezembro de 2019, Damares contava com o apoio de 29% da população que vota no PT, por exemplo. A principal razão desse fenômeno do conservadorismo bolsonarista é conhecida, mas tem sido historicamente negligenciada pelos dirigentes homens da esquerda brasileira.

Depois da eleição de Bolsonaro, Damares Alves deu várias entrevistas na impresa contando sobre as violências que sofreu na infância: ela foi estuprada dos 6 aos 12 anos por dois pastores que ficavam hospedados com frequência na casa da família. Segundo a ministra, ela tentou contar sobre os estupros pra várias pessoas, mas ninguém prestou atenção no que ela dizia, muito menos no comportamento que ela passou a desenvolver com o trauma.

Nessas entrevistas, Damares relatou que “superou” seus traumas causados pelos estupros quando subiu em uma goiabeira e encontrou Jesus. Por mais anedótico que esse episódio seja pra muita gente, Damares faz questão de recontá-lo com frequência para reafirmar que ela foi acolhida e protegida pela igreja evangélica. É aí que reside um dos maiores entraves pra esquerda: o Estado era alternativa pra ela?

Damares não foi a única mulher a ser acolhida em situação de violência
no universo pentecostal. Justamente por isso, seu discurso sobre
abstinência sexual tem tido grande aderência em amplos setores da
sociedade brasileira. A principal razão é a resposta altamente
conservadora e violenta via Estado que ela propõe pra combater a
epidemia de violência doméstica na infância e contra a mulher.

Além disso, dessexualizar e deserotizar a sociedade brasileira à sua imagem e semelhança: Damares é uma mulher que faz questão de não ter nenhum traço de sensualidade, de erotismo, de encanto. Uma mulher dura, rígida, monocromática – como milhares de outras mulheres que, consciente ou inconscientemente, têm a mesma postura rígida e reprimida como proteção a qualquer tipo de violência. Vocês já pensaram que o descaso com a saúde, corpo e alma, pode ser um escudo contra homens que se sentem no direito de abusar e violentar mulheres de várias maneiras?!

Obviamente que tenho profundas críticas à Ministra Damares e ao bolsonarismo de maneira geral, mas a minha opinião não importa nada porque esse país tem milhões de Damares que nunca foram respeitadas, acolhidas e protegidas. Milhões de Damares que nunca foram ouvidas pelo Estado e nem consideradas protagonistas em um projeto de país progressista. O drama delas nunca foi a escolha entre a democracia liberal e o socialismo de mercado. Elas nunca tiveram escolha que não fosse a igreja evangélica.

E são essas mulheres, esse contigente imenso de gente largada à própria sorte, que a esquerda vai continuar ignorando e/ou chamando de fascista? Porque essas mulheres não concordam com o Bolsonaro, mas foi e ainda é no mesmo universo dele e da ministra Damares que elas e seus filhos foram e são acolhidos. Que mulher-mãe-solo não quer proteção para seus filhos? Quem há de acusá-las e condená-las quando não há alternativa?!

Tudo isso pra escrever três coisas: 1. mulheres-mães-solo (a maioria trabalhadoras domésticas precarizadíssimas) e seus filhos precisam ocupar lugar central em um projeto de Brasil em oposição ao bolsonarismo; 2. a violência na infância e contra as mulheres precisa ser tratada como epidemia e jamais como pauta identitária como tem acontecido pela ala economicista de uma esquerda machista e socialmente irresponsável; 3. não adianta as lideranças partidárias afirmarem a necessidade de diálogo com os evangélicos se parte significativa da militância se sente moralmente superior e no direito de dizer à essa população que ela não pode ter religião ou qual
religião ela deve ter. Por todas as razões acima: isso é muito violento.

O bolsonarismo, como um fenômeno de massa da extrema-direita, deslocou
todo campo político e isso tem nos obrigado a rever muita coisa. A principal delas é a relação entre religião e política na esquerda brasileira.

Escrito por Patrícia Valim, professora de História do Brasil Colonial da Universidade Federal da Bahia. Conselheira do Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Perseu Abramo

Resposta cibernética do Irã

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”Se o uso da pólvora, do fuzil, dos drones, dos mísseis e da gigantesca imoralidade de se matar e celebrar a morte está autorizado na guerra convencional, qual o problema em se usar a tecnologia que atinge o usuário de rede e a respectiva opinião pública (seguida de resultados eleitorais) para se obter êxito no ‘mercado da soberania’?”, pergunta o colunista Gustavo Conde sobre as possibilidades de resposta do Irã ao atentado de Trum.

Tudo indica que a resposta que o Irã dará aos EUA será no submundo das redes sociais e na indústria da informação sensível. Não há resposta melhor do que implodir qualquer possibilidade de reeleição de Donald Trump.

O Irã tem inteligência, tecnologia, dinheiro e gente altamente qualificada para isso.

Sem jogar uma bomba, dar um tiro ou praticar qualquer ato terrorista como os americanos fizeram, o povo iraniano pode dar um troco inédito ao império (seria o estilo Soleimani, ademais: mais estratégia e menos ignorância).

Troco inédito e pedagógico, diga-se, pois mostraria ao mundo que os processos de manipulação da informação e da opinião pública patrocinados pelos EUA e pelo poder econômico têm novos desafios a encarar, a saber, experimentar do seu próprio veneno.

Heróis, pretensos heróis e agentes românticos do bom-mocismo conceitual espalhados pelo mundo têm profundo pudor em descer ao nível de ‘Steves Bannons’ e ‘Cambridges Analyticas’ para, assim, equilibrarem o jogo pesado do jornalismo de guerra e das campanhas eleitorais de fachada.

Mas a mera lógica que rege a defesa da soberania dos povos há séculos – as Forças Armadas de todo e qualquer país – joga por terra essa visão asséptica do tabuleiro geopolítico.

Se o uso da pólvora, do fuzil, dos drones, dos mísseis e da gigantesca imoralidade de se matar e celebrar a morte está autorizado na guerra convencional, qual o problema em se usar a tecnologia que atinge o usuário de rede e a respectiva opinião pública (seguida de resultados eleitorais) para se obter êxito no ‘mercado da soberania’?

A rigor, é menos sangue e menos imagens cinematográficas de prédios destruídos e pessoas mutiladas (ainda que a ascensão de fascistas via fraudes ciber-eletorais incorram nessas mesmas cenas de destruição, afiançadas depois pelo terrorismo de Estado).

O cenário é complexo, mas, por isso, vamos ficar imóveis?

Lembrando também que usuários com leitura qualificada têm grandes chances de se verem fora da zona de influência dos manipuladores profissionais de rede. Os mais suscetíveis são os intelectualmente “desprivilegiados”, justamente os eleitores de Donald Trump.

A proliferação da idiotice violenta alcançada com algoritmos como nos casos do Brexit, de Trump e de Bolsonaro, teria, então, seu fatal encontro consigo mesma: usuários precarizados cognitivamente podem eleger um mastodonte do ódio, mas podem também “deseleger”.

Esse deve ser o componente novo nessa agressão colossal provocada por Donald Trump.

A guerra convencional não é mais aquele velho jogo articulado entre o poder econômico e jornalismo de aluguel, que nos legou Vietnã, Iraque, Afeganistão e toda devastação da soberania latino-americana. O jogo, agora, é outro.

Alguns chamam de guerra híbrida, outros de neo-imperialismo. Mas o elemento-chave dessa nova geração de conflitos atende pelo nome de ‘internet’.

O assassinato de Soleimani é um imenso acúmulo de energia digital, tanto para o seu algoz, quanto para as vítimas que sofrem com sua perda física.

A perda física, no entanto, transforma-se imediatamente em ganho simbólico (e o ganho físico nem sempre se traduz em logro significante).

Se quiser, o Irã pode devastar a zona de conforto cibernético que mantém os EUA em razoável tranquilidade, ainda que Trump seja fruto de sabotagem doméstica.

O comentário mais comum desde o atentado americano em Bagdá é o de que o Irã não vai reagir de imediato – e que a reação tampouco será nos moldes do terrorismo dos anos 2000 ou da retaliação rudimentar puramente bélica.

Soleimani, ao que parece, combatia o terrorismo. Talvez, essa seja a chave para se compreender melhor sua eliminação por Trump: o general iraniano lhe tomava espaço e começava a ocupar o protagonismo político entre a nova geração na região da Ásia Ocidental.

Ameaça gigantesca aos segmentos ultraconservadores de Israel e a sua eterna pretensão hegemônica, alimentada com cifras delicadas e ambíguas de ocidentalismo regado a ares de modernidade.

A reação do Irã, portanto, deve ser na linha dos bastidores, no mercado da contrainformação e na operação agressiva na estrutura de redes sociais mobilizadas pelo trumpismo. Seria a mais óbvia e mais inteligente reação.

Isso resvalaria na mixórdia política e social em que se transformou o Brasil. Se o Irã derrotar Trump naquilo que lhe é mais sagrado (a reeleição), Bolsonaro volta a ser o pano imundo de limpar chão que sempre foi em questão de segundos.

Já que nenhum segmento progressista do mundo se dispõe a sujar as mãos na podridão que é o gerenciamento político-eleitoral de redes, talvez o Irã faça isso por todos nós.

Seria menos criminoso que um assassinato ou que um atentado terrorista.