Intervenção eleitoral de Temer

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Era carnaval. A Globo fez reportagens sensacionalistas chocantes sobre o caos da violência do Rio de Janeiro. O carnaval. Os dados mostram que não houve uma real onda de violência no Rio no carnaval. Foram registradas 5.865 ocorrências policiais no total no Rio, entre os dias 9 e 14 de fevereiro, enquanto no carnaval do ano passado (quando a Polícia Civil ainda estava em greve), foram 5.773. Segundo o IPEA, o Rio de Janeiro não está entre as 30 cidades mais violentas do país.

Por que a Intervenção Militar ocorrerá no Rio então? Porque a Globo fica lá, porque é uma cidade de destaque político, internacional e cultural do Brasil. O Rio é vitrine. É uma jogada de marketing de Temer. Quem passa um dia inteiro discutindo Intervenção Militar com um marqueteiro? Se existe um caos na segurança, fazer isso seria no mínimo irresponsável.

Em troca dessa última cartada de Temer estão as vidas da população pobre, negra e periférica no Brasil.

Mandados de prisão e de busca e apreensão poderão ser expedidos coletivamente. Moradias de bairros inteiros poderão ser invadidas sem causa específica. Ninguém acha que as casas invadidas e revistadas serão as do Leblon e de Ipanema, né? Mesmo que tenha um certo senador da República, amigo de outro certo senador que tem um helicóptero cheio de cocaína, que mora no Leblon. Serão as casas pobres lá de onde a novela do Manoel Carlos não romantiza, só fetichiza.

Nesse bojo, Temer acaba com o já quase acabado Ministério dos Direitos Humanos. Vem aí o Ministério da Segurança. A bolsonarização do Governo Temer é eleitoreira. Direitos Humanos passa a ser assunto da Segurança. Inclusão? Enfrentamento às desigualdades? Combate à fome? Saúde pública? Saneamento básico? Educação pública? Nada disso é Direito Humano mais. Direito humano é para humanos direitos e os humanos direitos são quem Temer decide que é. O Secretário dos Direitos Humanos? Deve ser o advogado do Eduardo Cunha. Um humano direitíssimo. O Ministro da Segurança que vai cuidar dos Direitos Humanos? Um General.

Sabe a gravidade do Interventor só responder pelos seus crime em um Tribunal Militar? Significa que ele NÃO responderá pelos seus crimes! Que pode matar, pode torturar, pode invadir. Sabe a gravidade da fala do General Eduardo Villas Bôas sobre a necessidade da garantia de dar aos militares a certeza de que não haverá uma nova Comissão da Verdade? É licença pra matar que tão pedindo! Licença pra matar gente pobre.

Lembremos das UPPs… Anunciadas com alarde. Comemoradas. Qual o resultado delas? A necessidade da Intervenção Militar uma década depois?! Toda política midiática de ocupação de território gera para a classe média com medo de furto e tiroteio uma inicial e falsa sensação de segurança. E depois? Depois vem a milícia dominar o território e o crime organizado se reorganiza. Porque é uma política de segurança FALIDA. Uma falsa guerra às drogas que dá voto e dinheiro, mas já começou perdida há décadas. Se tiraram os traficantes de hoje virão outros amanhã. Precisa fazer mais quantas vezes pra saberem que não há resultado a longo prazo?

A fala de Temer que pararia a Intervenção Militar no caso de conseguir os votos necessários para a Reforma da Previdência mostra a urgência da Intervenção. Urgente que pode parar um pouquinho. Há pouco, depois da falta de votos para a Reforma da Previdência desistiu e apresentou uma nova agenda prioritária para o Governo. A agenda do Mercado. Agenda da venda do país. Intervenção faz parte dela.

Essa falsa sensação de segurança pode durar até o processo eleitoral e ser a redenção de Temer frente a opinião pública? Pode. O Governo Temer não tem nada a perder e essa pode ser a sua única chance de recuperar algo da ínfima popularidade. Diferente da população pobre desse país, que tem a própria vida e a vida dos seus em jogo.

*Por Camila Moreno

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