O ”big three” baiano

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Pensadores, como o filósofo Marcos Nobre, não têm dúvida de que o presidente Bolsonaro tentará dar um golpe. Para ele, não é questão de ”se”, mas de ”quando” vai acontecer. O 7 de Setembro, a seu ver, foi apenas a preparação para a tentativa de ruptura institucional. Nobre acredita que a intenção de Bolsonaro é ficar esticando a corda e quando os braços dos defensores da democracia estiverem cansados do cabo de guerra, ele puxará todos para o regime autoritário que pretende instalar no Brasil.

A imprensa nacional brasileira também não tem dúvida do real objetivo de Bolsonaro. No dia em que se comemorou a Independência, os principais veículos rotularam o ato e as declarações do presidente de ”antidemocráticos” e ”golpistas”. A gente pode e deve acreditar na solidez das nossas instituições políticas, mas isso não nos livrará de uma tentativa de golpe. Depois da principal democracia do mundo – os EUA – sofrer um ataque com a invasão dos apoiadores de Trump ao Capitólio, não me parece possível dizer que exista algum país livre de um rompimento democrático.

As principais autoridades no Brasil reagiram bem à postura de Bolsonaro, o que fez ele divulgar uma declaração à nação. Todos nós sabemos que o recuo é temporário. Em breve, quando se sentir fortalecido, ele voltará com a metralhadora giratória contra a democracia brasileira. Entretanto, o que me chamou a atenção no 7 de Setembro foi a reação tímida do que chamo de ”big three” da política baiana contemporânea, trio formado por Rui Costa, Jaques Wagner e ACM Neto.

O governador se limitou a publicar, pela manhã, um tweet em que dizia: ”independência é liberdade, é democracia”. Dois dias depois, disse que as falas de Bolsonaro ”atrapalham” o país. Venhamos e convenhamos, as declarações do presidente não só “atrapalham” o Brasil. É muito mais do que isso. O senador foi mais incisivo do que Rui. Defendeu o impeachment em uma postagem no Twitter, mas só no dia seguinte ao Sete de Setembro. No dia mesmo, afirmou que ”independência é democracia forte, com um governo que respeita as instituições”.

O comportamento dos petistas reforça a percepção de que há um desejo do PT de manter Bolsonaro para facilitar o retorno de Lula ao poder, e do próprio Wagner. Para efeito de comparação, o governador maranhense Flávio Dino fez no dia mais de 10 publicações no Twitter em defesa do país, e acusou o presidente de cometer crime de responsabilidade. Além disso, concedeu entrevistas para a imprensa. No dia seguinte, repetiu a estratégia.

ACM Neto, que já afirmou ser “democrata até a medula” e prometeu “ir para rua para defender a democracia”, também agiu de maneira tímida aos arroubos autoritários de Bolsonaro. Antes do ato, declarou que ”um Brasil independente é um Brasil livre do radicalismo, que valoriza a democracia”. No final da noite daquele 7 de Setembro, o seu partido divulgou uma nota dizendo que repudiava com ”veemência o discurso do senhor presidente da República ao insurgir-se contra as instituições”. Neto parece querer evitar o embate com Bolsonaro para não nacionalizar a eleição na Bahia, e também para não perder o apoio de alguns bolsonaristas, que podem votar nele a fim de impedir a permanência do PT no estado.

O que Rui, Wagner e Neto parecem desconhecer é de que, sem democracia, não há eleições diretas e livres. Portanto, salvar o país de ameaças antidemocráticas deve estar acima de qualquer interesse eleitoral.

E fora do ”big three”, como se posicionaram os políticos da Bahia? O prefeito soteropolitano Bruno Reis fez apenas críticas às aglomerações provocadas pela manifestação. Bruno não mostra ainda ter uma identidade política, e uma hora terá que se escolher se quer ser lembrado apenas como ”sucessor de ACM Neto” ou como um prefeito com um legado relevante e de posições firmes. Já o ministro João Roma decidiu deixar de lado o perfil moderado, e mergulhou de vez no mar do bolsonarismo. Sabe ele que sua sobrevivência política depende do presidente. Só não sabemos ainda de que lado ele estará se, porventura, Bolsonaro deflagrar o golpe.

A democracia não aceita meio-termo. Ou se a defende com unhas e dentes ou a se renega. O que a gente espera é que todos a defendam com coragem.

*Rodrigo Daniel Silva é repórter da Tribuna e escreve artigos quinzenalmente às terças

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