Uma câmera na mão e dinheiro na maleta: a Lava Jato da vida real

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Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça. Com essa máxima, Glauber Rocha revolucionou a Sétima Arte brasileira e se tornou o maior expoente do Cinema Novo. Para o cineasta não eram necessários grandes orçamentos para demonstrar, de forma artística, a dura realidade do sertão brasileiro. Polícia Federal: A Lei É para Todos, conjuga novamente cinema e política, mas de forma oposta à de Glauber. Com um alto e obscuro orçamento, o filme é tão parcial quanto Sérgio Moro e seria absurdo até como ficção. Enquanto isso, a Lava Jato da vida real implode a República, com Supremo com tudo. A arte não imita a vida no país do golpe.

A Lava Jato do cinema é uma ode antipetista. Possui ares de propaganda ideológica e tenta, de forma vã, passar uma idéia de imparcialidade. Os distribuidores da película ocultaram os patrocinadores, tornando todo o processo ainda mais obscuro. Certamente, ninguém aloca 16 milhões em um projeto, sem expor sua marca, se não possuir interesses ideológicos a transmitir, nesse caso, de forma desonesta. O clímax do thriller é a condução (abusiva) do ex-Presidente Lula, decretada por Sérgio Moro. Nas palavras do crítico Rafael Braz, que acompanhou a pré estréia, o Lula representado por Ary Fontoura é “uma figura odiosa” e “desprovida de carisma”.

Enquanto isso, na mesma semana do lançamento oficial do filme, a Lava Jato da vida real segue seu roteiro escrito por Romero Jucá. As gravações nefastas de Joesley Batista voltam a abalar a distopia temerista e agora prometem comprometer pessoalmente 4 ministros do STF. Talvez isso clarifique para o expectador mais atento porque processos importantes contra Aécio, José Serra ou mesmo o julgamento do processo de impeachment são sempre tão protelados. Talvez a população também fique sabendo a origem do dinheiro encontrado em malas e caixas em um apartamento do ex-Ministro (e amigo) de Temer, Geddel Vieira. A vida real está muito mais intrigante que a ficção.

Glauber Rocha se caracterizou por sua capacidade de improviso, sua criatividade e inovação. Em seus filmes, utilizava a arte para retratar a realidade, o que lhe garante um lugar entre os maiores cineastas de seu tempo. Por politizar a arte, acabou perseguido e exilado no período da ditadura militar. O filme Polícia Federal: A Lei É para Todos se utiliza de uma linguagem cinematográfica justamente para mascarar a realidade e realizar propaganda eleitoral. Enquanto isso, é melhor ficar atento às gravações amadoras de Joesley e às malas de Geddel, porque essa Lava Jato real, nós não veremos no cinema.

*Por Guilherme Coutinho, Jornalista, publicitário e especialista em Direito Público.

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