O povo não perdoa

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Político é capaz de consertar relógio de pulso usando luvas de boxe. A metáfora explica bem a capacidade impressionante que a classe política brasileira tem de se manter aderente ao poder, sobrevivendo como protozoários oportunistas em ambientes que lhe é favorável. Isso explica, por exemplo, a adesão das amebas golpistas do PMDB à provável candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Por isso considero precipitado e inoportuno o sinal emitido pelo ex-presidente, de perdoar aqueles que avalizaram o golpe e mergulharam o Brasil na mais grave crise econômica, política e social dos últimos 60 anos. Quem tem o patrimônio eleitoral na casa dos 35% de intenções de voto, pode e deve dar as cartas desse jogo. Quem precisa de votos são os deputados, senadores e governadores do PMDB que sustentam Michel Temer no governo, e que dificilmente voltarão aos seus postos em 2019. São eles que devem pedir perdão à sociedade brasileira.

Na minha coluna anterior, citei a grande vantagem competitiva de Lula sobre os demais candidatos, por ser o único que sabe levar uma mensagem de esperança para o povo. Esperança é uma pedra preciosa frágil, capaz de ser estilhaçada por uma simples frase mal colocada. Lula não tem de perdoar ninguém para ser presidente novamente. Por qual motivo então se disporia a ser tábua de salvação para essa gente? Se o pensamento é a governabilidade, então que o faça com os sobreviventes desse maremoto político que afogará mais de 70% da atual representação do parlamento brasileiro.

Os pecadores, esses sim, é que devem humildemente pedir perdão ao Lula. No entanto, nenhum deles sinalizou arrependimento pelos crimes que cometeram. Blindaram Michel Temer por duas vezes para evitar um processo de investigação pelo Supremo. Destruíram o principal legado getulista de proteção ao trabalhador, com uma reforma que suprime direitos e reduz salários a níveis de escravidão. Estão prontos para votar a reforma da Previdência na forma do “morra antes de receber qualquer benefício”. Entregaram o patrimônio do país a troco de banana para grupos internacionais. Essa turma merece perdão?

A força de Lula vem da esperança. Ao sinalizar a possibilidade de trazer para essa raia aqueles que não possuem esse patrimônio, renuncia seu maior trunfo e cai na vala comum. Não tenho a menor dúvida de que será eleito presidente do Brasil em 2018. Mas agora, meu caro, cada um que responda ao seu eleitor pelos atos que praticou.

Políticas de aliança são recursos históricos no processo eleitoral brasileiro. Mas é preciso compreender que esse paradigma mudou. Em 2018, a renovação e a clareza de posições serão  marcas determinantes para motivar o eleitor a confiar o voto em alguém. Que Renan Calheiros, Eunício Oliveira, Romero Jucá e tantos outros parasitas políticos se entendam com seu eleitorado. Tudo o que eles estão fazendo de pernicioso contra a nação brasileira é dividendo a favor da volta de Lula à presidência. A hora, portanto, é de renovação política e consolidação de alianças com novas lideranças políticas nos estados e municípios. De nada vai valer o perdão de Lula aos golpistas, se o povo já os condenou.

POR CELSO READER

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