Liberdade

/ Artigos

”Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma, que não exista força humana alguma que esta paixão embriagadora dome. E que eu por ti, se torturado for, possa feliz, indiferente à dor, morrer sorrindo a murmurar teu nome.”

Confesso, caros leitores, que a primeira vez que li essa estrofe do poema ”Liberdade”, escrito por Carlos Marighella em 1939, quando ele se encontrava encarcerado no Presídio Especial de São Paulo, sob as torturas da polícia de Filinto Müller, na forma que assim aprendi com Frei Betto, in “Batismo de Sangue – Os dominicanos e a morte de Carlos Marighella”, pensei que fosse uma ode à amada.

Como amo a educação e hoje mais bem informado, recentemente, declamei esse poema quando, na condição de diretor da Escola de Contas Conselheiro José Borba Pedreira Lapa (ECPL), do Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE), dei as boas-vindas a 32 alunos do curso técnico de Administração de Empresas do Colégio Estadual Carlos Marighella, localizado no bairro do Stiep, em Salvador, que participaram de mais uma edição do Programa Casa Aberta.

O Programa Casa Aberta foi iniciado em 2016, tendo por público-alvo a comunidade estudantil do Ensino Fundamental II (do 7º ao 9º ano), do Ensino Médio e graduandos de instituições de educação superior da Bahia. Seu objetivo é estimular o controle social e despertar a consciência sobre a importância de se exercer plenamente a cidadania, por meio de novas perspectivas de atuação na sociedade e do conhecimento das ações desenvolvidas pelo TCE/BA. No seu primeiro ano de realização, foram contemplados 483 estudantes de dez instituições de educação superior.

Em 2019, o Programa foi ampliado, com a inauguração do Casa Aberta Inclusivo, tendo por público-alvo alunos de escolas especiais. Nessa modalidade do Programa, participaram 131 estudantes das seguintes instituições: Fundação da Criança e do Adolescente (FUNDAC), Instituto de Cegos da Bahia, Centro de Educação Especial da Bahia (CEEBA), e Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE).

Em 2020 e 2021, devido à pandemia da covid-19, o Programa Casa Aberta foi suspenso, retornando a sua execução em 2022. Até o início do mês de junho de 2022, foram atendidos, pelo Programa, 249 estudantes de sete escolas do ensino médio, entre elas o Colégio Estadual Carlos Marighella, e 20 de uma instituição de ensino superior.

Desde o seu início até o dia 2 de junho de 2022, o Programa atendeu 2.659 estudantes, sendo 1.813 de ensino médio e 846 de ensino superior.

Sempre que posso, procuro participar da abertura desses encontros para mostrar aos jovens cidadãos que nos visitam a importância do controle social para o aprimoramento das políticas públicas. Entendo que esse tipo de controle somente se materializa com a informação adequada sobre o papel e a importância das instituições públicas.

Como creio no ensino pelo exemplo, apresento um pouco da nossa trajetória de vida e incentivo os estudantes a questionarem e a crerem que é possível abrir as portas com a chave da educação.

Sempre me emociono nesses encontros, pois, ao ver nossos alunos da escola pública, rememoro o que fui e o quanto os anos que ali passei foram importantes para me tornar o que hoje sou. Entretanto o encontro com os meninos e meninas do Colégio Estadual Carlos Marighella foi ainda mais especial, pois me fez recordar que, quando fiz a minha educação básica e superior, eu não tinha o devido conhecimento sobre o regime de exceção pelo qual passava o nosso país. Para mim, o poema ”Liberdade” era tão somente versos de amor. De fato, eu só tomei pé da situação, já fora da universidade, pela leitura, pelos filmes e pelos relatos dos que viveram e sentiram na pele os reflexos dos tempos de chumbo, que, loas, não hão de voltar.

Quando nós, servidores do TCE/BA, abrimos a nossa Casa para estudantes, estamos cientes da nossa responsabilidade no processo de transformação social, principalmente quando ouvimos depoimentos tais como o da jovem Rafaela Souza, 20 anos, aluna do Colégio Carlos Marighella: ”A experiência de hoje vai influenciar meu comportamento como cidadã. Estarei mais vigilante ao que acontece na minha escola e no meu bairro. Vou transmitir para o máximo de pessoas as informações e os canais de comunicação da Ouvidoria”.

Hoje, cada vez mais, assim creio, tornam-se imperiosos a leitura e o estudar, pois a vida nos oferece várias portas. Compete a cada um abrir a sua e traçar a sua jornada, sem se esquecer, pois, de que a educação é o melhor caminho para alcançar nossos objetivos e, sorrindo, nos libertar.

E não nos esqueçamos de que não valorizamos a liberdade quando a temos. Nós somente sabemos o que é a liberdade quando a perdemos.

Alguns acreditam que a liberdade se conquista pelas armas e partem para a luta, como tentou inutilmente fazer Marighella. Outros defendem que é preciso armar – pasmem – a população para o povo libertar. Eu prefiro sonhar que, com as penas e com os livros, é possível alcançar a tão sonhada liberdade. Liberdade que, como bem o disse Cecília Meireles, no Romanceiro da Inconfidência, é “essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”.

*Inaldo da Paixão Santos Araújo é mestre em Contabilidade. Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia, professor da Universidade do Estado da Bahia, escritor. [email protected]

Os comentários estão fechados.