Escolhido por Bolsonaro, delegado Ramagem será o novo diretor-geral da Polícia Federal

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Alexandre Ramagem Rodrigues assume a PF. Foto: Reprodução

O presidente Jair Bolsonaro decidiu nesta sexta-feira, dia 24, indicar o delegado Alexandre Ramagem Rodrigues como novo diretor-geral da Polícia Federal (PF). Delegado de carreira da corporação, ele atualmente dirige a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e conta com o apoio dos filhos do presidente para assumir a PF.

Ramagem assumirá o cargo no lugar do delegado Maurício Valeixo, cuja exoneração levou o ex-juiz da Operação Lava Jato Sergio Moro a se demitir do Ministério da Justiça e Segurança Pública. O ex-ministro denunciou que o presidente tentou interferir na PF, com exigência de acesso a dados inquéritos no Supremo Tribunal Federal e relatórios de inteligência. Ele diz que Valeixo não cedeu e por isso sofreu pressão no cargo. Bolsonaro nega.

”Quero um delegado que, além da competência comum na Polícia Federal, que eu possa interagir com ele. Por que não? Eu interajo com órgãos de inteligência das Forças Armadas, com a Abin, com qualquer um do governo”, afirmou Bolsonaro, em pronunciamento nesta sexta.

Com 47 anos, 15 deles na PF, Ramagem conquistou a ”total confiança” da família presidencial nas eleições de 2018, quando assumiu a coordenação da equipe de segurança pessoal do então candidato Bolsonaro, após a facada que levou durante um ato de campanha em Juiz de Fora (MG). Ele foi o terceiro a assumir a tarefa.

Sérgio Moro desmente Jair Bolsonaro: ”se fosse meu objetivo, teria concordado ontem”

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Moro rebate acusações de Bolsonaro. Foto:Isaac Amorim

Ex-ministro da Justiça e ex-juiz federal, Sergio Moro usou suas redes sociais para rebater a acusação feita por Jair Bolsonaro na tarde desta sexta-feira (24). O presidente afirmou que Moro condicionou a troca na Polícia Federal a uma indicação ao Supremo Tribunal Federal (STF).

”A permanência do diretor-geral da PF, Maurício Valeixo, nunca foi utilizada como moeda de troca para minha nomeação para o STF. Aliás, se fosse esse meu objetivo, teria concordado ontem com a substituição”, escreveu Moro, no Twitter.

Durante a manhã, o ministro anunciou que pediria demissão do Ministério da Justiça, por perceber a falta de compromisso de Bolsonaro com o combate à corrupção. Isso porque o presidente queria interferir nos quadros de chefia da corporação por motivações políticas.

Presidente Bolsonaro diz que Moro condicionou troca na Polícia Federal a vaga no Supremo

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Bolsonaro alfineta o ex-ministro Sérgio Moro. Foto: Alan Santos

Ao lado de ministros, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) disse que luta ”contra o sistema” e rebateu na tarde desta sexta-feira o ex-ministro Sergio Moro (Justiça). Disse que ”autonomia não é sinal de soberania” e que, como presidente, tem ”poder de vetos em cargos chave.”

Segundo Bolsonaro, Moro pediu a ele para que a troca do comando da Polícia Federal ocorresse após o então ministro da Justiça e ex-juiz ser indicado ao Supremo Tribunal Federal. ”É desmoralizante para um presidente ouvir isso”, afirmou Bolsonaro. Ainda sobre hierarquia, Bolsonaro disse que ”o dia em que eu tiver que me submeter a um subordinado, deixo de ser presidente da República”.

Bolsonaro afirmou que confiava em Moro e que nunca esteve contra a Operação Lava Jato. E reforçou que as nomeações de seu governo não são feitas de forma partidária.

”Colocamos um ponto final nisso, poderosos se levantaram contra mim. Estou lutando contra o sistema. Coisas que aconteciam no Brasil não acontecem mais”, disse o presidente, que completou ser isso sinal de sua coragem de ter montado um time de ministros técnicos. ”Eu tenho o Brasil a zelar.” Sobre Moro, disse ainda: ”Uma coisa é ter a imagem de uma pessoa, outra é conviver com ela”. Bolsonaro admitiu que cobrou Moro pela investigação sobre a facada. ”Nunca pedi para ele que a PF me blindasse onde quer que fosse”.

Bolsonaro afirmou que ”nunca pedi pra ele [Moro] o andamento de qualquer processo” e que a ”inteligência com ele [Moro] perdeu espaço na Justiça”. E que pedia sim relatórios atualizados. ”[Pedia] quase que implorando informações.” E completou: ”Eu sempre abri o coração pra ele, e duvido se alguma vez se ele abriu pra mim.”

O presidente disse não ter que pedir autorização para trocar um diretor da Polícia Federal. ”Não tenho que pedir autorização para trocar um diretor ou qualquer outro que esteja na pirâmide hierárquica do executivo.” Declarou que Moro se preocupou mais com caso Marielle Franco do que com Adélio Bispo, que o tentou matar com uma faca. Bolsonaro lembrou da tentativa de assassinato que sofreu em Juiz de Fora (MG) e disse que Moro não esteve com ele durante a campanha eleitoral.

O presidente disse que Moro, como juiz da Lava Jato, era ”um ídolo”. Para Bolsonaro, Moro tem o compromisso com o seu ego. Relembrou do episódio do aeroporto, em 2017, quando o então juiz não lhe deu atenção no aeroporto de Brasília. Ao anunciar sua demissão do Ministério da Justiça na manhã desta sexta-feira, Moro apontou fraude no Diário Oficial da União no ato de demissão de Maurício Valeixo do comando da Polícia Federal e criticou a insistência de Bolsonaro para a troca do comando do órgão, sem apresentar causas aceitáveis.

Moro afirmou que Bolsonaro queria ter acesso a informações e relatórios confidenciais de inteligência da PF. ”Não tenho condições de persistir aqui, sem condições de trabalho.” E disse que ”sempre estará à disposição do país”. A demissão de Moro foi antecipada pela Folha nesta quinta-feira (23). O vice-presidente Hamilton Mourão afirmou à Folha que a saída de Moro é uma perda para o governo. ”O Moro é um cara muito bom e excepcional. Eu acho que ele vinha fazendo um bom trabalho. Mas relação é relação, né”, disse. ”Não é bom, mas vida que segue.”

A ala militar do governo se sentiu traída e discute se segue dando apoio ao governo depois do desembarque do ex-juiz da Lava Jato. Ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) enxergaram crimes de Bolsonaro na fala de Moro, conforme noticiou a coluna Mônica Bergamo.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) chegou a pedir a renúncia de Bolsonaro. Parlamentares, um ministro do STF e entidades também criticaram a saída de Moro. Em seu discurso pela manhã, Moro destacou a autonomia da PF nas gestões do PT, mesmo com ”inúmeros defeitos” e envolvimentos em casos de corrupção. Relembrou ainda promessa de ”carta branca” recebida pelo então presidente eleito Bolsonaro, em 2018, para nomear todos os assessores, inclusive na Polícia Federal.

Conforme a Folha revelou, Moro já havia pedido demissão a Bolsonaro na manhã desta quinta-feira (23), quando foi informado pelo presidente da decisão de demitir Valeixo. O ministro avisou o presidente ali que não ficaria no governo com a saída do diretor-geral, escolhido por Moro para comandar a PF.

A exoneração foi publicada como ”a pedido” de Valeixo no Diário Oficial desta sexta-feira, com as assinaturas eletrônicas de Bolsonaro e Moro. Como também mostrou a Folha, porém, o ministro não assinou a medida formalmente nem foi avisado oficialmente pelo Palácio do Planalto de sua publicação. O nome de Moro foi incluído no ato de exoneração pelo fato de o diretor da PF ser subordinado a ele. É uma formalidade do Planalto.

”Fiquei sabendo pelo Diário Oficial, não assinei esse decreto”, disse o ministro. O agora ex-ministro disse que isso foi algo ”ofensivo” e que ”foi surpreendido”. ”Esse último ato foi uma sinalização de que o presidente me quer fora do cargo.” Moro topou largar a carreira de juiz federal, que lhe deu fama de herói pela condução da Lava Jato, para virar ministro. Ele disse ter aceitado o convite de Bolsonaro, entre outras coisas, por estar “cansado de tomar bola nas costas”.

Tomou posse com o discurso de que teria total autonomia e com status de superministro. Desde que assumiu, porém, acumulou uma série de recuos e derrotas. Moro se firmou como o ministro mais popular do governo Bolsonaro, com aprovação superior à do próprio presidente, segundo o Datafolha.

Pesquisa realizada no início de dezembro de 2019 mostrou que 53% da população avaliava como ótima/boa a gestão do ex-juiz no Ministério da Justiça. Outros 23% a consideravam regular, e 21% ruim/péssima. Bolsonaro tinha números mais modestos, com 30% de ótimo/bom, 32% de regular e 36% de ruim/péssimo.